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Piauí cria política para atender mulheres com sangramento uterino

Durante quatro meses, Simone Bezerra da Silva Pinto, de 39 anos, moradora de José de Freitas, viveu praticamente sem sair de casa. O sangramento era tão intenso que absorventes deixaram de ser suficientes. Ela passou a usar fraldas descartáveis. “Eu chorava muito. Dizia para o meu esposo que eu não aguentava mais tanta dor e tanto sangramento. Não tinha mais ânimo para trabalhar nem para sair. Nem a fralda descartável estava segurando”, relembra.

A história de Simone está longe de ser um caso isolado. Estima-se que cerca de um terço das mulheres brasileiras em idade reprodutiva apresente sangramento uterino anormal em algum momento da vida. Em aproximadamente metade desses casos, o problema pode evoluir para anemia, necessidade de transfusão de sangue, internações e perda importante da qualidade de vida.

Foi pensando nessa realidade, muitas vezes invisível, que entrou em vigor no Piauí a Lei Estadual nº 9.079, de 27 de julho de 2026, de autoria do deputado estadual Francisco Limma (PT). A legislação institui a Política de Atendimento Integral às Pessoas com Sangramento Uterino Anormal na rede estadual de saúde, estabelecendo diretrizes para diagnóstico precoce, acolhimento humanizado, atendimento prioritário e organização dos fluxos assistenciais.

Embora o sangramento uterino anormal seja uma das principais causas de atendimento ginecológico no Sistema Único de Saúde (SUS), muitas mulheres ainda convivem por meses, e até anos, com sintomas considerados “normais”, adiando a busca por atendimento.

Foi o que aconteceu com Isadora Silva Ponciano, de 27 anos, moradora de Nazária. Depois do nascimento da filha, em 2020, ela passou a sentir dores intensas, além de um fluxo menstrual muito acima do normal.

“Passei dois anos fazendo tratamento e continuava com as mesmas dores. Quando refiz os exames, descobri que a endometriose tinha evoluído e veio também a adenomiose”, conta.

Recentemente, Isadora esteve no Hospital da Polícia Militar, em Teresina, e recebeu pelo SUS um DIU hormonal, utilizado como tratamento. “A médica foi muito atenciosa. Hoje estou melhor e agora espero que o tratamento reduza as cólicas, o sangramento e as dores para que eu volte a ter qualidade de vida”, afirma.

Segundo a ginecologista Ana Caroline Tavares, coordenadora do Planejamento Familiar do Hospital da Polícia Militar (HPM), muitas complicações poderiam ser evitadas se as mulheres procurassem atendimento logo nos primeiros sinais. “A maioria dos casos de sangramento uterino anormal pode ser diagnosticada e tratada antes de evoluir para complicações importantes”, ressalta.

Ela alerta que nenhuma mulher deve considerar normal conviver com sangramentos persistentes. “

A mulher deve procurar avaliação médica quando apresentar fluxo muito intenso, sangramento que dura mais de oito dias, sangramentos entre as menstruações, após a relação sexual ou depois da menopausa.”

No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde é feita a avaliação clínica inicial. Quando necessário, a paciente é encaminhada ao ginecologista para exames complementares e definição do tratamento.

No Hospital da Polícia Militar, o atendimento é voltado para pacientes encaminhadas com indicação de tratamento clínico. Somente em 2026, o serviço realizou a inserção de 167 DIUs hormonais Mirena, utilizados principalmente para controlar o sangramento uterino anormal e evitar procedimentos mais invasivos.

Foto: Divulgação

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O que diz a nova lei

A nova lei também busca padronizar esse cuidado em toda a rede estadual. Entre as diretrizes estão a adoção de protocolos clínicos baseados em evidências científicas, capacitação permanente dos profissionais de saúde, garantia de acesso aos exames, prioridade no atendimento dos casos graves e fortalecimento da rede de referência.

 A legislação determina ainda que nenhum atendimento poderá ser retardado ou negado quando houver suspeita de sangramento uterino anormal, justamente para evitar agravamentos que poderiam ser prevenidos.

Na justificativa do projeto, o deputado Francisco Limma ressalta que o sangramento uterino anormal pode estar associada a doenças como endometriose, adenomiose, miomas e até câncer do colo e do corpo do útero. O texto também destaca que a Região Nordeste apresenta índices superiores à média nacional desse problema, agravados pelas dificuldades de acesso ao diagnóstico especializado.

“Por muito tempo, milhares de mulheres sofreram em silêncio, convivendo com dores intensas e sangramentos que comprometem a saúde, o trabalho e a vida familiar. Essa lei nasce para garantir que elas sejam acolhidas, diagnosticadas e tratadas no tempo certo”, afirma o deputado Francisco Limma.

A nova legislação pretende romper uma cultura que faz muitas mulheres acreditarem que sentir dor intensa ou sangrar excessivamente faz parte da rotina feminina. A expectativa é que, com protocolos definidos e atendimento mais rápido, milhares de piauienses consigam receber diagnóstico precoce, iniciar o tratamento antes das complicações e recuperar algo que muitas vezes o sangramento tira silenciosamente: a qualidade de vida.

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