Quando a copa desliga a fábrica e liga a geladeira: a revolução silenciosa no consumo de energia

Enquanto milhões de brasileiros vibram com um gol da seleção, há um exército de técnicos e engenheiros monitorando, segundo a segundo, o pulso elétrico de um país inteiro. A proximidade da Copa do Mundo não movimenta apenas torcedores e comerciantes — ela desenha um novo perfil de consumo de energia elétrica no Brasil, com picos e vales tão previsíveis quanto emocionantes. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) monta operações especiais para acompanhar cada partida, e o fenômeno é tão marcante que, durante a Copa de 2022, a estreia contra a Sérvia registrou uma redução de 7.300 MW entre as 14h20 e os primeiros minutos do jogo, queda de aproximadamente 10% em relação ao patamar normal. Na edição de 2018, a redução chegou a 2.979 MW apenas na meia hora que antecedeu o apito inicial, enquanto cerca de duas horas antes de um jogo da seleção inicia-se uma rampa de redução da carga que pode chegar a 13.000 MW — equivalente ao consumo médio do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal juntos, abrangendo cerca de 40 milhões de habitantes.
O grande protagonista do consumo, porém, é o intervalo. Quando o árbitro apita o fim do primeiro tempo, ocorre uma elevação rápida e intensa da demanda. Na Copa de 2018, o crescimento foi de 3.600 MW em apenas sete minutos — o equivalente ao consumo de todo o estado de Santa Catarina. Na edição de 2022, o pico no intervalo da partida contra a Coreia do Sul atingiu quase 3.000 MW, um aumento de 4% em poucos minutos. O estudo mais detalhado sobre o tema foi conduzido pelo próprio ONS, que lançou boletins específicos de operação durante a Copa do Mundo de 2022 no Catar. A pesquisa, realizada em novembro e dezembro de 2022, mapeou o comportamento da carga no Sistema Interligado Nacional (SIN) em tempo real e identificou padrões consistentes com edições anteriores do torneio, comprovando que o intervalo concentra sistematicamente o maior consumo de energia em dias de jogos da seleção.
Mas por que exatamente o intervalo concentra o maior consumo? A explicação está nos nossos comportamentos domésticos. Quando a bola para, milhões de lares brasileiros se movimentam simultaneamente: acendem mais luzes na casa, ligam micro-ondas para esquentar a comida, fritadeiras elétricas para preparar petiscos, pipoqueiras para acompanhar o segundo tempo e abrem geladeiras e freezers com mais frequência. O ONS descreve esse fenômeno como uma “desmobilização das pessoas diante da televisão“, que aproveitam a pausa para realizar atividades domésticas acumuladas. É o efeito de milhões de decisões individuais — ligar uma luz, esquentar uma pizza, buscar uma bebida na geladeira — convergindo em um único instante e criando uma onda de demanda que o sistema elétrico precisa absorver em questão de minutos, transformando o intervalo de 15 minutos no momento mais elétrico do dia.
Esse cenário apresenta desafios significativos para o setor elétrico. O principal deles é a gestão das “rampas de carga” — as variações abruptas de demanda que exigem resposta imediata das usinas geradoras. Após o apito final, a elevação pode atingir 12.000 MW em 20 a 30 minutos, representando 13% a 16% da carga total do SIN. Para o ONS, isso significa mobilizar equipes de planejamento, previsão de carga e operação em tempo real, ajustando geração e recursos de controle de tensão para garantir a estabilidade do sistema. A previsibilidade dos jogos — com horários e datas definidos com antecedência — torna o evento um laboratório natural para testar tecnologias e estratégias de resposta da demanda, onde consumidores industriais e comerciais podem ser incentivados a ajustar seu consumo em troca de benefícios tarifários.
Por outro lado, o fenômeno abre portas para inovações e oportunidades. O conhecimento detalhado desses padrões permite o desenvolvimento de estratégias de demanda response, além de testar tecnologias de armazenamento de energia e integração de fontes renováveis no manejo de picos. A experiência acumulada nas edições de 2010, 2014, 2018 e 2022 transformou o ONS em um dos operadores de sistema mais preparados do mundo para eventos de mobilização nacional, e cada nova Copa serve como campo de testes para aprimorar ainda mais essas capacidades.
À medida que nos preparamos para a próxima Copa do Mundo, o setor elétrico brasileiro segue aprimorando suas ferramentas de previsão e resposta. O futuro aponta para uma integração cada vez maior entre inteligência artificial e previsão de carga, permitindo antecipar variações com ainda mais precisão. Com a expansão da geração solar e eólica, o desafio será harmonizar a intermitência dessas fontes com a previsibilidade dos picos de demanda. Mas se há algo que décadas de dados comprovam, é que o futebol brasileiro e a energia elétrica nacional dançam ao mesmo ritmo — e esse ritmo, com a tecnologia certa, pode se tornar sinônimo de eficiência, inovação e sustentabilidade. A próxima Copa não será apenas uma festa no campo: será mais um capítulo na evolução de como um país inteiro liga e desliga suas luzes.
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