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Bets: psiquiatra alerta para sinais de vício e impacto no orçamento familiar

As apostas on-line deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a representar um problema de saúde pública, especialmente quando o hábito se transforma em uma relação compulsiva com o jogo. Além dos prejuízos financeiros, o chamado transtorno do jogo pode afetar a saúde mental, os relacionamentos e a rotina.

Dados de um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), mostram a dimensão do problema. Em 2025, as famílias brasileiras tiveram perda líquida de R$ 62,5 bilhões com as apostas. O valor corresponde a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

No mesmo ano, o volume de transações via Pix relacionado às apostas chegou a R$ 351 bilhões. O levantamento considera a diferença entre o dinheiro transferido pelos apostadores e os valores devolvidos pelas plataformas em prêmios.

O assunto também preocupa as autoridades de saúde. O psiquiatra Ralph Webster explicou que o transtorno do jogo é considerado um problema de saúde pública e destacou a importância de identificar os sinais antes que as perdas financeiras e emocionais se agravem.

Como identificar o vício em apostas

Segundo o psiquiatra, algumas perguntas simples podem ajudar a identificar uma relação problemática com os jogos. Entre os sinais de alerta estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores e a tentativa de esconder ou mentir para pessoas próximas sobre quanto e como está apostando.

“Se a sua resposta para qualquer uma dessas perguntas é sim, seria importante procurar, reavaliar essa postura de jogo, essas perdas com jogos”, explicou Ralph Webster.

Outro comportamento que merece atenção é a tentativa de recuperar no jogo o dinheiro que já foi perdido. De acordo com o especialista, esse ciclo pode fazer com que o apostador aumente progressivamente os prejuízos.

“A gravidade das perdas é uma das características do jogo, que é a pessoa vai apostar para tentar recuperar o que perdeu. Só que nunca consegue”, afirmou.

O Ministério da Saúde também aponta como sinais de alerta apostar por mais tempo ou gastar mais do que o planejado, preocupação frequente com jogos e mudanças no sono, humor, rotina e relações familiares e sociais.

Por que as bets ganharam tanto espaço?

Foto: Arquivo/Cidadeverde.com

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Para o psiquiatra, um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento das apostas é a facilidade de acesso.

Antes, quem queria apostar precisava se deslocar até uma banca ou casa de apostas. Hoje, o celular permite que a pessoa aposte praticamente de qualquer lugar, a qualquer hora.

“Você está sentado aqui, está na fila, está em qualquer canto, está com o celular, você está apostando”, destacou.

Ralph também chamou atenção para a publicidade e para o que classificou como “falsa sensação de controle”. Segundo ele, mensagens que sugerem que o apostador pode parar quando quiser podem reforçar justamente uma percepção equivocada sobre o próprio comportamento.

“Você vai perder o controle, mas você vai ter sempre o entendimento de que você está no controle”, afirmou.

Quem tem maior risco?

O psiquiatra explicou que existe uma predisposição maior em pessoas que apresentam determinados transtornos relacionados ao controle dos impulsos. Ele citou, entre outros exemplos, pessoas com TDAH e ansiedade.

Isso, porém, não significa que qualquer pessoa que aposte desenvolverá dependência. O comportamento problemático depende de uma série de fatores e deve ser avaliado individualmente.

Ralph Webster explicou ainda que momentos de angústia, luto ou sofrimento emocional podem aumentar a vulnerabilidade de algumas pessoas ao comportamento de apostar.

Ele fez uma distinção entre momentos de tristeza ou ansiedade e diagnósticos de depressão. Segundo o psiquiatra, as próprias perdas acumuladas provocadas pelo jogo também podem contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas emocionais.

O Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um transtorno de comportamento aditivo, associado à dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.

SUS oferece atendimento gratuito

O Sistema Único de Saúde ampliou a assistência para pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas. Atualmente, o atendimento pode começar pela Unidade Básica de Saúde (UBS) e, quando necessário, ser encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O Ministério da Saúde também oferece atendimento remoto por meio do Meu SUS Digital.

A pessoa pode acessar o aplicativo ou a versão web do Meu SUS Digital, entrar com a conta Gov.br e procurar a opção relacionada a problemas com jogos de apostas. A plataforma disponibiliza um autoteste que ajuda a identificar possíveis sinais de risco e, nos casos indicados, direciona para o atendimento especializado.

O próprio Ministério da Saúde ressalta que o autoteste não substitui um diagnóstico profissional.

Autoexclusão permite bloquear acesso às bets

Outra ferramenta disponível é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda. O mecanismo permite que o próprio usuário bloqueie, de uma só vez, o acesso às plataformas de apostas autorizadas.

A ferramenta também impede a abertura de novas contas vinculadas ao CPF durante o período escolhido e bloqueia o recebimento de publicidade direcionada das empresas.

A autoexclusão pode ser solicitada com uma conta Gov.br e é gratuita. O usuário pode escolher o período de bloqueio, inclusive por prazo indeterminado, conforme as regras da plataforma.

Família também tem papel importante

Para Ralph Webster, familiares e amigos podem ser fundamentais para ajudar alguém que esteja enfrentando problemas com apostas. O primeiro passo, segundo ele, é chamar a atenção para as mudanças provocadas pelo comportamento, especialmente os prejuízos financeiros e as alterações na rotina.

“É importante a família fazer a pessoa notar o quanto ela está perdendo com o jogo, e não o quanto ela está ganhando”, orientou.

O especialista recomenda que a família ofereça ajuda para buscar atendimento, em vez de apenas cobrar que a pessoa pare de apostar.

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