Geral

Aos 5 anos, menina transforma desenhos em fábrica de brinquedos 3D

Maria Pessoa Medeiros tem 5 anos e, quando começa a falar sobre seus brinquedos, é difícil acompanhar a velocidade das ideias. Ela mostra um jacaré articulado, uma cafeteria que ela mesma pensou, explica como funciona um equilibrista, apresenta um axolote — uma espécie de salamandra aquática —, fala sobre dragões, dinossauros e até ensina como o filamento entra na impressora 3D para virar um brinquedo.

Em meio às criações, Maria também fala em vender. “Se não tivesse preço, como é que a gente ia ganhar dinheiro?” , pergunta, com a naturalidade de quem descobriu uma nova brincadeira.

O empreendedorismo, porém, não nasceu como um projeto empresarial planejado pela família. Ele apareceu no caminho, quase como consequência de uma característica que os pais, Aline Pessoa e Eudóxio Medeiros, já observavam havia anos: Maria gosta de criar.

Antes da impressora 3D, vieram os desenhos. Depois, as massinhas, os personagens e as invenções. A menina sempre encontrou uma maneira de transformar aquilo que imaginava em alguma coisa concreta. A pequena marca, chamada Migles Mini Labs, surgiu há apenas três meses, depois que a família decidiu encontrar uma forma segura de colocar em prática as ideias da filha.

Foto: Benonias Cardoso/ Cidadeverde.com

Maria, dos desenhos a impressora 3D

Aline é advogada e atua como gestora em saúde. Eudóxio é gerente de Tecnologia da Informação em um hospital. Os dois trabalham fora e, por isso, a produção acontece nas horas disponíveis da família.

A impressora, inicialmente, não chegou com a intenção de transformar Maria em uma pequena empresária. Ela veio de uma necessidade muito mais simples: permitir que a menina criasse os próprios brinquedos.

“Ela sempre desenhou desde muito cedo. A gente percebeu que ela gosta de desenhar, de um traço diferente. Foi algo que chamou a atenção da gente já há bastante tempo. Ela traz para o desenho detalhes que são muito diferenciados para a idade”, conta Aline.

Tudo começou com brinquedos e desenhos

Maria gostava de brincar e também de ganhar brinquedos. O problema, segundo a própria menina, é que isso custava dinheiro. Então, por que não fazê-los?

“É que eu gastava muito dinheiro com brinquedo, aí a gente resolveu ter essa ideia de a gente fazer brinquedo que eu faço na 3D. Aí minha mãe comprou essa impressora”, explica.

A lógica infantil é simples: se ela queria tantos brinquedos, poderia ajudar a criar os próprios.

Foto: Arquivo Pessoal

maria_pessoa_3d_14.jpeg

A primeira experiência de venda, no entanto, aconteceu antes da impressora. Em um domingo, a família montou uma pequena vendinha na porta de casa. Maria levou brinquedos e lembrancinhas de aniversário que haviam sobrado. Outras crianças apareceram, e a menina gostou da experiência.

“Não era 3D. Eram brinquedos dela, com ela. E ela gostou muito desse momento ali fora, porque vinham outras crianças. A gente colocou o preço para explicar que tinha um preço, ensinar sobre repasse e valores para ela”, lembra Aline.

Depois vieram eventos realizados no condomínio onde a família mora, como sessões de cinema ao ar livre. Maria passou a levar os brinquedos e participar das pequenas vendas. Foi aí que a ideia ganhou outro formato.

Antes da impressora, Maria queria uma caneta 3D. A família, entretanto, considerou que o equipamento poderia ser mais difícil para uma criança manusear, porque o bico esquenta, funcionando de maneira semelhante a uma pistola de cola quente.

A impressora acabou sendo uma alternativa. Ao mesmo tempo em que permitia que Maria criasse, também possibilitava que outras crianças tivessem acesso aos brinquedos produzidos.

Uma fábrica que funciona no ritmo de uma criança

Na casa de Maria, a impressora não é exatamente uma máquina de produção acelerada. Cada brinquedo tem seu próprio tempo. Um modelo pode levar cerca de 50 minutos. Outros chegam a mais de nove horas. Um dinossauro que Maria desenha, por exemplo, pode demorar aproximadamente três horas e meia para ficar pronto.

E isso acabou se transformando em outra experiência para Maria: aprender a esperar.

“Tem uns negócio que é muito demorado de fazer e não dá para fazer nunca” (sic), brinca a menina.

Foto: Benonias Cardoso/ Cidadeverde.com

Maria, dos desenhos a impressora 3D

A mãe explica que o tempo da máquina também ajuda a trabalhar a ansiedade. “Às vezes ela quer um modelo, aí a gente fala que demora mais tempo, que precisa esperar. Ela espera para o outro dia. Se for muito demorado, bota na hora de dormir. Aí no outro dia de manhã a gente tira da impressora”, conta.

A própria Maria já incorporou a lógica. Se um brinquedo cai, por exemplo, não é motivo para desistir.

“Aí monta de novo. É só montar de novo”, ensina.

impressão também pode exigir troca de cores, ajustes e acompanhamento das etapas. Maria participa principalmente das escolhas e da criação. Ela consegue procurar modelos em um aplicativo ligado à máquina e escolher aquilo que quer produzir.

O pai, Eudóxio, explica que, quando o brinquedo utiliza várias cores, é necessário fazer a troca do filamento durante o processo, já que a impressão acontece em camadas.

Maria sabe o que é o filamento e tenta explicar com suas próprias palavras.

“É uma coisa que a gente usa para fazer o brinquedo. É a cor do brinquedo. Isso é como se fosse uma tinta, só que é o que cria o brinquedo”, explica a menina.

Da sala de casa para o fundo do mar

As coleções também não seguem um planejamento rígido. Elas acompanham os interesses de Maria.

Houve uma tentativa de criar uma coleção chamada “Lendários”, com dragões de fogo e água. No meio do processo, porém, a menina foi a uma exposição sobre o fundo do mar em um shopping.

A ideia mudou.

“Aí a gente foi para uma exposição do fundo do mar. ‘Ah, e uma coleção do fundo do mar?’ Pronto, se empolgou na história da coleção do fundo do mar e aí a gente começou a pesquisar mais essa parte”, conta Aline.

Maria lembra da exposição e explica que foi ali que surgiu a inspiração para os brinquedos do tema. A coleção passou a reunir animais e personagens aquáticos. Entre eles está o axolote, que Maria identifica como um animal aquático e diz estar ameaçado de extinção.

Foto: Benonias Cardoso/ Cidadeverde.com

Maria, dos desenhos a impressora 3D

Há também libélulas, peixes e outros modelos. Algumas criações são articuladas; outras podem ser movimentadas ou montadas.

Os dinossauros também fazem parte da história. E, em meio às mudanças de interesse, até os nomes podem mudar. Um dos personagens, segundo Maria, recebeu outro nome e passou a se chamar Brownie.

A menina ainda prepara um diorama do fundo do mar. “O diorama é como um cenário, só que de montar”, explica.

Nem tudo, porém, está à venda. Maria faz questão de separar as criações que são dela.

“Na verdade, eu vou te mostrar os que não estão à venda”, anuncia.

São brinquedos, cenários e personagens que ela ainda está montando ou simplesmente decidiu guardar.

Brinquedos que não servem apenas para brincar

Com o tempo, Maria e os pais também começaram a pensar em brinquedos sensoriais. São peças que trabalham, por exemplo, equilíbrio, coordenação motora, atenção e outras habilidades.

Um deles é um brinquedo de equilibristas, no qual Maria tenta montar uma torre. Outro trabalha a coordenação motora fina. Há ainda uma guia de leitura, que ajuda a acompanhar as palavras linha por linha, e uma pequena “horta” sensorial em formato de canteiro.

Maria conhece a finalidade de algumas das peças. “É para trabalhar a atenção”, diz sobre um dos brinquedos.

A mãe explica que essa escolha também partiu da observação sobre as necessidades da filha e acabou ampliando o público interessado nas criações.

“Os brinquedos acabam trazendo isso também. Trabalham o equilíbrio, a coordenação motora, até para começar a trabalhar a parceria, as questões relacionadas a esperar, o tempo de espera, a frustração”, afirma Aline.

Foto: Benonias Cardoso/ Cidadeverde.com

Maria, dos desenhos a impressora 3D

A procura, segundo ela, deixou de partir apenas de famílias interessadas em brinquedos. “Recentemente, profissionais que trabalham com desenvolvimento infantil também nos procuraram e começaram a comprar para utilizar em seus atendimentos, mas, como somos uma empresa familiar, acaba que não conseguimos atender a demandas muito grandes”, conta.

Para a família, a proposta é fazer com que os brinquedos deixem de ser apenas objetos comerciais e passem a ter uma função relacionada ao desenvolvimento infantil.

“Foi uma forma de ajudá-la em seu desenvolvimento, de direcionar os brinquedos que eram mais comerciais para brinquedos que pudessem, de certa forma, apoiar o desenvolvimento dela como criança”, explica.

A criança antes da marca

Aline faz questão de separar Maria da marca. A menina participa das escolhas, sugere modelos, acompanha as criações e aparece em alguns conteúdos, mas a família evita transformar sua imagem em ferramenta comercial.

A marca tem uma mascote inspirada na própria Maria. Uma fotografia da menina foi transformada em uma personagem que aparece nas embalagens.

“Essa bonequinha, na verdade, eu acho que pode ser um mascote”, corrige Maria durante a conversa.

A menina também pensa em divulgação. Em determinado momento, observa que poderia colocar o nome da marca em sua camiseta.

“Ah, era para ter botado, tipo, o nome da Migles na minha camisa”, comenta.

Mas existe um limite estabelecido pelos pais. A família procura respeitar quando Maria quer ou não participar de fotos e vídeos.

“Isso é uma brincadeira da Maria e não uma forma de exploração comercial da imagem dela. Por isso, vai muito do que ela quer fazer. Se ela não quer gravar a voz, a gente não faz a voz; se ela não quer tirar foto, a gente não faz foto, e assim seguimos”, explica Aline.

Nos vídeos para as redes sociais, Maria costumava movimentar os brinquedos e apresentar as criações. Depois, a família passou a utilizar uma voz gerada por inteligência artificial para apresentar os produtos, justamente para reduzir a exposição da voz e da imagem da menina.

O cuidado é intencional: Maria pode brincar de empreender, mas continua sendo uma criança de 5 anos.

O brinquedo que vira criação, aprendizado e encontro

A psicóloga infantil Suzana Martins acompanha o desenvolvimento de Maria e vê na experiência uma oportunidade que vai além do empreendedorismo. Segundo ela, a criatividade está relacionada à flexibilidade cognitiva, habilidade que pode ser estimulada durante a infância.

“Quando a gente pensa em criatividade, a gente tem que entender que por trás do conceito de criatividade existe uma habilidade, que todos nós nascemos com a possibilidade de desenvolver, que é a flexibilidade cognitiva”, explica.

Para Suzana, estimular a criatividade não significa necessariamente preparar uma criança para ser empreendedora. A habilidade pode aparecer em diferentes situações da vida.

“A estimulação da criatividade traz inúmeros benefícios, não só para o desenvolvimento em relação ao aspecto de empreendedorismo ou de forma academicamente falando, mas também em relação à própria socialização”, afirma.

Foto: Rayane Venancio/ Cidadeverde.com

SUZANA PSICOLOGA INFANTIL

No caso de Maria, a experiência de produzir e apresentar os brinquedos também cria situações de interação.

“Se alguém me pede algo, como eu posso reagir, como eu posso responder, como eu posso fazer alguma alteração do que eu já tenho de produto, ou como eu posso explicar algo para alguém? Isso traz uma possibilidade, uma oportunidade de que a criança vá treinando, vá experimentando mesmo, nessa vivência, formas de se relacionar com o outro, com o mundo e com ela mesma”, acrescenta a psicóloga.

Ela ressalta, entretanto, que não é necessário transformar toda habilidade infantil em uma atividade comercial. Para os pais que percebem um interesse diferente nos filhos, o primeiro passo, segundo Suzana, é observar.

“O que aquela criança manifesta precisa ser visto, precisa ser ouvido. Ela está sinalizando que quer, que está comunicando algo que para ela é importante”, afirma.

E completa: “Eu entendo que o valorizar é o pilar principal. E ajudá-la a criar caminhos para que aquilo vá se ampliando.”

Longe das telas, perto do que pode ser tocado

Os brinquedos sensoriais também chamaram a atenção da psicóloga por outro motivo: eles oferecem uma experiência concreta em um momento em que muitas crianças passam bastante tempo diante de telas.

“Esses materiais, esses brinquedos, recursos, trazem a possibilidade de viver o que é real, o que está ali, que pode ser tocado, que pode ser visto, que pode ser experimentado, que pode ser utilizado de diferentes formas”, explica.

Suzana conta que ela própria adquiriu uma das criações de Maria, uma fazendinha com animais. Como terapeuta infantil, encontrou diferentes possibilidades de utilização do brinquedo.

“Já assumiu para mim, como adulta e terapeuta infantil, inúmeras funções: para trabalhar atenção, para trabalhar o repertório de brincar simbólico, para trabalhar a divisão, a troca de turno entre uma criança e a outra”, relata.

Para ela, o valor está justamente na possibilidade de a criança transformar o mesmo objeto em diferentes brincadeiras. “Cada forma que a criança utiliza aquele material, ela vai aprendendo sobre flexibilidade cognitiva, sobre também controlar alguns impulsos durante aquela brincadeira”, afirma.

Quando a brincadeira começa a dar retorno financeiro

Em três meses de atividade, a Migles Mini Labs já conseguiu recuperar, segundo Aline, o investimento inicial feito pela família.

“O nosso faturamento basicamente cobre o nosso investimento. A gente fez um investimento que não é brincadeira barata, mas que a gente também acha que isso mais tarde vai gerar alguma receita. Hoje ele cobriu o nosso investimento nesses três meses”, conta.

A segunda impressora, inclusive, foi comprada com o faturamento da primeira. Mas a família não trata isso como uma corrida por crescimento. A atividade acontece dentro da rotina dos pais e, principalmente, respeitando os interesses de Maria.

“A gente não sabe como isso pode ser depois. Essa necessidade de colocar a ação e fazer com que se transforme em criação já foi da massinha, depois foi para o desenho”, explica Aline.

Foto: Benonias Cardoso/ Cidadeverde.com

Maria, dos desenhos a impressora 3D

Eudóxio reforça que a característica é antiga. Para ele, a trajetória foi acontecendo naturalmente.

“Ela é muito criativa desde sempre. Ela desenha desde muito novinha e tem que estar sempre criando alguma coisa. Do desenho ela foi para a massinha e da massinha já veio para isso.”

Aline acredita que o foco pode mudar conforme Maria cresce.

“O foco hoje é esse porque é um foco coerente com a idade dela também, os 5 anos, com brinquedos, com as coisas que ela gosta de explorar. Mas a gente não sabe como é que pode ser depois.”

Um universo que cabe em uma impressora

A experiência de Maria também acontece em um momento de expansão do acesso à impressão 3D. Para Lucas Fortes, técnico de laboratório do Espaço Hub de Inovações, a tecnologia permite transformar projetos digitais em objetos físicos e pode ser utilizada tanto por quem quer produzir quanto por quem pretende apenas explorar a ferramenta como hobby.

“Elas constroem do zero, a diferença vai ser o material que é utilizado. Também não é necessário um curso exatamente, existem cursos, mas você pode aprender a trabalhar com a 3D na internet. Além disso, existem muitas modelagens gratuitas nas próprias impressoras e, quando esse acesso precisa ser pago, hoje são valores acessíveis”, explica Lucas, ao comparar as impressoras que utilizam filamento com as de resina e como elas podem ser utilizadas.

Segundo ele, a impressão com resina proporciona um acabamento diferente, mas exige mais etapas e cuidados.

“A resina tem a pré-produção, tem a produção e o pós-produção. Como ela é um material um pouco tóxico, depois da produção você tem que ter todo um cuidado com ele”, afirma.

Para quem está começando, o técnico considera o filamento uma opção mais simples. As máquinas também permitem que arquivos encontrados na internet sejam utilizados, por meio de cartão de memória, pendrive, aplicativos ou conexão direta, dependendo do equipamento.

Foto: Rayane Venancio/ Cidadeverde.com

Lucas espaço HUB

A tecnologia, porém, não se limita à produção de brinquedos. Lucas conta que o espaço já recebeu projetos de pessoas que tinham impressoras em casa, mas precisavam de equipamentos diferentes para desenvolver determinadas peças.

“Tivemos um cliente que tinha a impressora, mas nunca tinha aberto. E aí teve que procurar esse serviço fora”, relata, ao citar o caso de um homem que procurou o espaço para customizar uma peça para um minicarro de Fórmula 1 que participaria de uma competição em São Paulo.

Segundo Lucas, a impressão 3D também pode ser um caminho para quem começa pequeno e amplia a estrutura conforme a demanda.

“Nos últimos meses, teve um empresário que comprou uma 3D e foi produzindo e, com isso, foi comprando outras impressoras e também vendendo elas. Ele comprava a pedido, comprava em grande quantidade, umas ficavam para ele e vendia as dele para outra pessoa”, conta.

No caso de Maria, a família ainda está descobrindo até onde a ideia pode chegar. E, para quem pretende transformar uma habilidade ou uma brincadeira em negócio, planejamento passa a ser importante.

Da brincadeira ao planejamento

Maísa Santos, analista de negócios do Sebrae, explica que a instituição oferece desde orientações rápidas até consultorias mais estruturadas para pequenos empreendedores.

“Uma das principais ferramentas que nós oferecemos para quem deseja empreender ou já empreende e quer melhorar o seu planejamento é o Plano de Negócios”, afirma.

Segundo ela, a ferramenta ajuda o empreendedor a entender o público, o mercado e os custos, além de antecipar possíveis dificuldades. No caso de uma empresa que trabalha com impressão 3D, por exemplo, é possível avaliar se a venda deve ocorrer pela internet, em um espaço físico ou em eventos, além de verificar se a capacidade das máquinas acompanha um eventual crescimento da procura.

“Você vai elencar qual é a característica do seu público, como está o seu mercado, quais são os custos fixos e os custos variáveis que o seu negócio vai precisar, qual é a expectativa de vendas que você tem”, explica.

Maísa destaca ainda que o planejamento não serve apenas para quem já está vendendo. Ele pode ajudar a testar a viabilidade de uma ideia antes que o empreendedor faça investimentos maiores.

Foto: Rayane Venancio/ Cidadeverde.com

maisa analista do sebrae

A analista também chama atenção para um dos principais desafios dos pequenos negócios: a falta de preparo para administrar a empresa.

“Nós temos um dado que hoje as empresas estão fechando em até 5 anos após abertas. E um dos principais motivos é a falta de planejamento. Não é a falta de boas ideias ou de ideias criativas”, afirma.

Além do planejamento, ela cita a falta de conhecimento em gestão financeira e a mistura entre as contas pessoais e empresariais como problemas que podem comprometer a continuidade do negócio.

“Às vezes, como é ele quem lidera seu negócio e cuida de tudo, ele pode estar tirando um valor ali do seu caixa para sanar uma questão pessoal. E isso também acaba prejudicando a saúde financeira do negócio”, explica.

Para os empreendedores familiares que estão começando, a principal recomendação é buscar conhecimento antes de tomar decisões. “Busquem informação. Pesquisem o que está acontecendo no mercado, entenda se o produto que você está criando vai ser aceito pelo seu público, aonde você precisa estar. É no digital? É no físico? São em feiras?”, orienta.

Maísa também destaca a importância da formalização conforme o negócio se estrutura.

“A formalização da empresa também é uma forma de ela crescer. A partir do momento que essa família passa a formalizar o seu negócio com CNPJ, eles passam a poder emitir notas fiscais, buscar créditos e conseguir créditos no banco, conseguir vender para órgãos públicos.”

No Piauí, o Sebrae também atua com educação empreendedora voltada ao público jovem. Segundo Maísa, neste ano o estado teve mais de 11 mil inscrições de estudantes e professores no Desafio Liga Jovem, programa que incentiva o empreendedorismo nas escolas de Ensino Fundamental.

“Isso demonstra que sim, a nossa juventude também está em busca de ideias de negócio, também está sendo apoiada e incentivada a pensar no empreendedorismo como uma opção de carreira”, afirma.

Para quem quer conhecer mais sobre tecnologia e impressão 3D, Lucas explica que o Espaço Hub de Inovações funciona no Teresina Shopping, na entrada 6, no edifício-garagem, próximo ao Banco do Brasil. O espaço recebe pessoas interessadas em apresentar projetos e buscar informações.

“Vocês podem nos visitar para apresentar seu projeto, ter mais informações”, diz.

Atualmente, o local oferece cursos voltados à tecnologia, incluindo inteligência artificial para negócios, Python e operador de computador. No momento, não há curso específico de impressão 3D, mas o espaço mantém parceria com o Sebrae.

O futuro pode ser qualquer coisa

No caso de Maria, toda essa estrutura ainda é apenas parte do cenário. Aos 5 anos, ela não está preocupada com planos de expansão, mercado ou gestão. Está interessada em descobrir o que pode sair de uma máquina, escolher o próximo modelo e, principalmente, criar alguma coisa nova.

Por enquanto, o futuro de Maria não tem um nome definido. Pode ser outra coleção, outro tipo de brinquedo, outro desenho ou uma invenção que ainda nem existe. A única certeza parece ser a vontade de criar.

Na casa da família, uma impressora pode funcionar enquanto Maria dorme. Pela manhã, ela pode encontrar pronto o brinquedo que imaginou no dia anterior. Pode também descobrir que uma criação caiu, desmontou ou não ficou como esperava.

Nesse caso, a resposta continua sendo simples: montar de novo. A psicóloga Suzana resume a importância de acompanhar esse processo sem transformar a infância em uma obrigação.

“A família precisa estar como uma ponte para que isso vá se ampliando dentro do que faz sentido para aquela família e para aquele contexto”, finaliza.

E Maria parece saber exatamente o que quer fazer com essa ponte: continuar inventando.

A história da menina, embora incomum pela idade, acontece em um cenário em que a presença dos jovens no universo dos negócios vem ganhando espaço.

empreendedorismo_infantojuvenil.png

Empreendedorismo infantojuvenil

Dados da Receita Federal, referentes a agosto de 2026, mostram que o Piauí tinha 206 sócios de empresas com até 17 anos, o equivalente a 0,09% do total de sócios do estado.

Entre os jovens de 18 e 19 anos, eram 1.536 sócios, ou 0,64%. O número aumenta nas faixas seguintes: 12.601 sócios tinham entre 20 e 24 anos, correspondendo a 5,31%, enquanto outros 25.984 estavam na faixa de 25 a 29 anos, o equivalente a 10,95%.

Somadas, as faixas de até 29 anos reuniam 40.327 sócios, cerca de 17% do total de sócios de empresas no Piauí.

Os números mostram que a presença dos mais jovens cresce conforme a idade avança. Sozinha, a faixa de 25 a 29 anos concentra quase dois terços dos sócios com até 29 anos.

No Piauí, os dados mais recentes sobre sócios de empresas mostram que a participação de menores de 18 anos ainda é pequena, mas já existe.

É justamente nessa faixa que está Maria. Aos 5 anos, ela ainda está muito longe do perfil dos jovens empreendedores analisados pelo Sebrae, mas sua experiência, ainda cercada de brincadeiras, já reúne alguns dos elementos presentes nesse universo: criatividade, autonomia, capacidade de transformar uma ideia em produto e disposição para interagir com outras pessoas.

Os dados também ajudam a colocar a experiência de Maria em perspectiva. No levantamento do Sebrae, 91,4% dos jovens donos de negócios trabalhavam por conta própria em 2023, enquanto apenas 8,6% eram empregadores.

Além disso, somente 25,4% tinham registro no CNPJ. Ou seja, começar um negócio é apenas o primeiro passo. À medida que a atividade cresce, aparecem desafios como formalização, planejamento, gestão e geração de renda e empregos.

Maria ainda não precisa lidar com nada disso. Entre um axolote, um dragão, uma catapulta e um diorama que ainda espera para ser terminado, a pequena fábrica continua sendo, antes de tudo, um lugar de brincadeira. O dinheiro veio depois. Antes dele, veio a vontade de criar — e, aos 5 anos, talvez seja justamente aí que esteja o começo de tudo.

cidadeverde

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo