Política

‘Selo de acurácia’ do TSE divide institutos de pesquisa

proposta de criar um “selo de acurácia” para levantamentos de intenção de voto dividiu institutos de pesquisa, que deixaram a reunião no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na terça-feira (14) com um misto de impressões entre a oportunidade de se cacifar no mercado e a inexequibilidade e falta de sentido da iniciativa tomada pela Justiça Eleitoral.

A minuta de resolução apresentada a 16 institutos que compareceram ao encontro convocado pelo presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, sugere a premiação para aqueles que mais se aproximarem do resultado das urnas. “Trata-se de um mecanismo que visa à valorização das boas práticas e ao permanente aperfeiçoamento técnico das pesquisas eleitorais, por meio do reconhecimento público às empresas que demonstrarem elevada acurácia em seus resultados”, diz o documento.

A princípio, levariam a premiação pesquisas exitosas tanto de boca de urna quanto as feitas na semana prévia à eleição, com um selo de caráter nacional e outros 27 para estados e Distrito Federal. Nunes Marques deu prazo até sexta (17) para que as empresas enviem sugestões de aprimoramento antes de avançar com uma resolução.

Para entender a recepção à proposta, o SBT News conversou com sete institutos: Real Time Big Data, Paraná Pesquisas e o Instituto Perfil, além de Quaest, Ipec, Ipespe e MDA – estes quatro últimos estiveram representados no TSE pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep). Procurada, a Nexus não quis se manifestar. Já o PoderData não respondeu ao requerimento.

Os institutos receberam a minuta apenas no encontro e tiveram três minutos para fazer suas considerações. A proposta do selo foi recebida com surpresa. A expectativa majoritária era de que a reunião girasse em torno de um alinhamento sobre metodologias e caminhos para contornar o excesso de liminares que proíbem a veiculação das pesquisas. Ambos os temas têm como pano de fundo um levantamento da AtlasIntel suspenso em junho após usar áudios do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o então banqueiro Daniel Vorcaro e ser alvo de recurso do PL, sob acusação de indução contra Flávio.

Durante a reunião, se posicionaram contra o selo institutos como o Datafolha, Real Time Big Data, PoderData e os quatro representados pela Abep, dentre eles o Ipec – fundado em 2021 por executivos do antigo Ibope. Já Paraná Pesquisas, AtlasIntel, Perfil Pesquisas e outros institutos menores consideraram que a proposta oxigena um mercado que permaneceu por muito tempo oligopolizado.

O que dizem os favoráveis

O diretor do Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, avaliou que o prêmio é uma “oportunidade de ouro” para empresas de pequeno e médio porte ganharem credibilidade e alcance de imagem. Por outro lado, traz riscos às maiores, que conduzem pesquisas em vários estados e terão mais problemas para adquirir o selo. “É uma forma de consolidar e enterrar institutos”, resumiu.

Representante do Perfil Pesquisas, que concentra seus levantamentos no Espírito Santo e sul da Bahia, o diretor Erasmo Lima diz que a novidade levaria a uma validação que reduz a necessidade de impugnar pesquisas por alegações irrelevantes, já que avalia que parte da Corte Eleitoral ainda não compreende por completo o trabalho metodológico dos institutos. “Você vai conseguir separar o joio do trigo com a chancela do TSE. Eu não tenho medo nenhum de errar porque a gente trabalha corretamente”, afirmou.

Pelas redes sociais, o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, disse estar ao lado da medida “a partir de critérios objetivos” de avaliação. “Espero que tenhamos novas ocasiões e que essa discussão contribua para a confiabilidade e assertividade dos estudos”, publicou.

O que dizem os contrários

Em nome da Quaest, Ipespe, Ipec e MDA, a advogada Natallia Lima, da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais, disse ao SBT News que o selo criaria uma métrica arbitrária para diferentes metodologias adotadas. “Para o mercado em si não é positivo. Você vai ter pesquisa feita em casa comparada com feita por telefone com pesquisa feita online. Tudo depende do que você quer aferir. Acho que vai ser um método injusto”, afirmou.

Outro ponto abordado pela advogada foi o incentivo que o selo dará à manipulação de resultados. Após as coletas, as empresas fazem as chamadas ponderações para ajustar os dados de forma a representarem de forma mais fiel o total da população.

“Empresas vão mudar os resultados na véspera. Vai prejudicar institutos sérios que estão trabalhando há muitos anos no mercado”, afirmou.

Já o diretor Lucas Sahd, do Real Time Big Data, considerou que o selo é “inexequível” e esbarra em outra discussão abordada no encontro: a proposta de restringir a contratação de pesquisas com recursos dos próprios institutos. Para Sahd, o selo somado à restrição cria uma barreira para empresas menores às vésperas da eleição.

“Eu não fui contratado para fazer. Vou ter que sair correndo de última hora para fazer? […] A não ser que todos os institutos façam pesquisa no último dia, quem vai receber o selo? Ninguém”, afirmou.

Retrato do momento

Apesar das divergências, foi consenso entre os institutos o argumento de que as pesquisas são “retratos de momento” em um mundo cuja percepção eleitoral é afetada pelas redes sociais e fenômenos abruptos de difícil captação.

Um exemplo citado pelo diretor do Instituto Perfil foi o episódio envolvendo a então deputada Carla Zambelli, que correu com uma arma atrás de um homem em São Paulo às vésperas do segundo turno das eleições de 2022. “Você faz uma pesquisa quarta e quinta, e sábado houve um fato político, a exemplo do que foi com Carla Zambelli. O instituto pode ser penalizado por isso?”, questionou.

Lucas Sahd também levantou dúvidas sobre a intenção do TSE com o selo. “Quem disse que uma pesquisa foi feita para acertar um resultado de uma eleição? Ela foi feita para registrar um retrato de momento”.

“A pesquisa mede intenção de voto, e o voto muda”, resumiu Natallia Lima.

sbtnews

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