Quem perde com o possível ‘tarifaço’ dos EUA ao Brasil?

Esta quarta-feira (15) marca o fim do prazo para que o governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, decida se irá aplicar um novo tarifaço contra os produtos brasileiros. Diante da possível imposição de novas tarifas, empresas e investidores acompanham com atenção os possíveis desdobramentos da medida.
Na prática, podem ser anunciados 25% adicionais sobre as importações brasileiras. Se somadas com a outra sobretaxa, de 12,5%, as sanções contra o Brasil pode chegar a um patamar de até 37,5%.
Caso esse “tarifaço” seja realmente confirmado, os efeitos devem atingir primeiro a indústria exportadora, especialmente fabricantes de produtos manufaturados, embora especialistas avaliem que o impacto sobre a economia brasileira, de forma geral, tende a ser limitado.
Quem será impactado?
Para Higor Rabelo, sócio da Valor Investimentos, o impacto inicial recairá sobre empresas que dependem das vendas para o mercado americano, sobretudo na indústria.
“Se o tarifaço vier, quem sente primeiro são os exportadores brasileiros, principalmente indústria e manufaturados: máquinas, aço e calçados. As grandes commodities, como café, carne e frutas, tendem a ficar de fora por conta da extensa lista de exceções, o que suaviza em parte a pancada”, afirma.
Segundo ele, apesar da relevância dos Estados Unidos para o comércio brasileiro, o país norte-americano já não é o principal destino das exportações nacionais, posição ocupada atualmente pela China. Por isso, o principal efeito de curto prazo seria financeiro. “O mais provável é volatilidade no câmbio e muito barulho no mercado, especialmente diante do cenário eleitoral. Mas isso não representa uma ruptura na economia”, completa.
O economista Davi Lelis, também sócio da Valor Investimentos, destaca que um eventual cenário de tarifas pode resultar em uma alta do dólar, que pressionará novamente os preços internos, os quais estavam começando a abaixar.
“O real está resiliente por causa do elevado juro brasileiro, mas uma tarifa cheia pressionaria a balança comercial e reintroduziria um prêmio de risco sobre o câmbio, justamente quando o IPCA dava sinais de desaceleração”, diz.
O especialista ressalta ainda que a maior ameaça não é apenas o imposto cobrado pelos Estados Unidos, mas a mudança nas cadeias globais de fornecimento. “O problema acontece quando o importador americano passa a comprar de fornecedores do México, Vietnã ou Índia. O dano real é perder contratos e participação de mercado.”
Protecionismo mudou de papel
Para Alessandra Brandão, sócia-coordenadora de direito tributário do Marcelo Tostes Advogados, as tarifas precisam ser analisadas dentro de um contexto maior. Segundo ela, o protecionismo surgiu historicamente para fortalecer a indústria nacional, por meio do aumento dos impostos sobre produtos importados, tornando os bens produzidos internamente mais competitivos.
A especialista explica, porém, que esse modelo passou a produzir efeitos diferentes em uma economia globalizada, na qual as cadeias produtivas estão interligadas.
“Hoje, praticamente nenhuma indústria consegue operar de forma totalmente autônoma. Empresas dependem de matérias-primas e componentes produzidos em outros países, de modo que uma tarifa pode encarecer justamente os insumos necessários para a indústria nacional.”
Como exemplo, Alessandra cita a indústria americana de suco de laranja. Embora os Estados Unidos possuam fabricantes do produto, parte da matéria-prima pode ser adquirida no Brasil a custos menores.
“Se houver aumento das tarifas sobre a laranja brasileira, a consequência pode ser justamente o aumento do custo de produção para a própria indústria norte-americana, reduzindo sua competitividade”, explica.
Além dos efeitos econômicos, Alessandra destaca que a utilização de tarifas como instrumento de negociação política aumenta a insegurança para empresas que atuam no comércio internacional.
“Mais relevante do que o percentual das tarifas é a imprevisibilidade regulatória gerada por medidas dessa natureza. Alterações frequentes das regras comerciais dificultam o planejamento empresarial, aumentam os custos de transação e reduzem a segurança necessária aos investimentos de longo prazo”, analisa.
Caso as novas tarifas sejam confirmadas, a especialista avalia que empresas brasileiras poderão ser obrigadas a renegociar contratos, reduzir margens de lucro e acelerar a busca por novos mercados consumidores. Ela ressalta ainda que o governo brasileiro já sinalizou possíveis medidas de apoio aos exportadores, embora ainda não tenha detalhado como elas funcionarão.
Mesmo sem tarifa, o risco continua
Para os especialistas, mesmo que as tarifas não entrem em vigor, isso não elimina o risco de novas restrições comerciais no futuro. Davi Lelis lembra que a investigação conduzida pelos Estados Unidos permanece aberta e envolve temas como Pix, comércio digital, propriedade intelectual, desmatamento e etanol.
“A tarifa continuará sendo um fantasma para as cadeias comerciais brasileiras enquanto esse processo existir”, afirma.
Na mesma linha, Alessandra Brandão avalia que empresas exportadoras precisam tratar o tema como um risco permanente de planejamento. Entre as medidas recomendadas estão a diversificação de mercados consumidores, a revisão de contratos para prever contingências tarifárias e o acompanhamento constante das normas publicadas pelas autoridades norte-americanas.
“A evolução do protecionismo demonstra que as tarifas deixaram de ser apenas instrumentos de proteção da indústria nacional e passaram a integrar, cada vez mais, a estratégia geopolítica dos Estados”, conclui.
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