Influenciadores acusam agência de desviar mais de R$ 1 milhão em ‘publis’

Um grupo de 16 influenciadores digitais e criadores de conteúdo acusa uma agência de estelionato e apropriação indébita. A empresa era responsável por gerenciar a carreira dos influenciadores, intermediando contratos de campanhas publicitárias, as chamadas “publis”.
Uma das supostas vítimas, Gustavo Rezende, afirma ter perdido mais de R$ 500 mil. Ele e o marido, Robert Rosselló, são donos do perfil 2 de Pais, em que compartilham o dia-a-dia da paternidade LGBTQIA+. O advogado do casal, Leonardo Conte, do escritório Conte Azevedo e Souza, protocolou notícia crime no Ministério Público de São Paulo acusando a empresa de apropriação indébita, organização criminosa e estelionato. Procurada pela reportagem, a Hello Group informou, por meio de seus advogados, que está apurando internamente as alegações.
QUEM É A HELLO GROUP
A Hello Group pertence a Marcelo Proença e ao marido, Rodrigo Chiba. Marcelo começou a carreira como professor de dança em Votorantim, no interior paulista. Já na capital, trabalhou como assessor de imprensa focado em artistas infantojuvenis, como Larissa Manoela.
Em parceria com Rodrigo, abriu a Hello Group, focada em marketing digital, e passou a abordar ativamente influenciadores iniciantes, oferecendo seus serviços. Marcelo é irmão do cabeleireiro Marcos Proença, conhecido na mídia como “hairstylist das celebridades” e dono de um salão de luxo no Jardim Europa em parceria com Flávia Alessandra.
CASO 2 DE PAIS
Em 2021, Robert e Gustavo trabalhavam como engenheiros civis e mantinham paralelamente o perfil na internet onde compartilhavam a rotina com os filhos gêmeos. Eles tinham quatro mil seguidores quando foram abordados por Marcelo. O casal fechou contrato de exclusividade com a agência, no qual, segundo eles, receberiam 70% do valor das publicidades e 30% seria repassado aos empresários.
“A gente emitia uma nota referente a esses 70% e a Hello Group emitia outra nota de 100%, o que já era meio esquisito, mas na época não entendíamos que isso daria uma dupla tributação”, diz Gustavo. “Na nossa bio [do Instagram], tinha o nosso e-mail, que era direcionado a eles. A gente não tinha contato com nenhum contratante”, diz.
Gustavo diz que quando começou a estranhar os atrasos nos pagamentos, pediu acesso a esse e-mail. Foi quando teria descoberto que havia um e-mail paralelo, com endereço parecido, onde eram acertados os contratos.
Desconfiado, o casal passou a entrar em contato com todos os contratantes pedindo comprovantes dos pagamentos. “Aí veio aquele choque”, diz. “Era muito dinheiro que deixamos de receber. As datas e valores eram mentirosos.”
Gustavo afirma que tinha uma relação de extrema confiança com os empresários. “Eles pegaram nossos filhos no colo, frequentávamos a casa deles e eles a nossa, meus filhos os chamam de tio Marcelo e tio Chiba”, diz. “A mentira e a manipulação eram gigantescas”, diz.
Foto: Reprodução/instagram

‘PAGUEI IMPOSTO POR DINHEIRO QUE NUNCA RECEBI’
A atriz e influenciadora Laura Castro, que era cliente da Hello Group há sete anos, conta que nunca desconfiou dos desvios até o ano passado. “Descobri que eles mentiram diversas vezes em relação aos meus pagamentos. Me faziam emitir notas que nunca chegavam às empresas. Paguei imposto por dinheiro que nunca chegou até mim, mas que as empresas já tinham transferido, só que para eles”, afirma Laura, que não quis informar o montante desviado.
Ela também está acionando a dupla na Justiça e diz estar emocionalmente abalada, já que era amiga dos empresários. “Foi um baque gigante, eu e minha família tínhamos eles como amigos. É muito decepcionante”, diz.
Já o humorista Zel Junior preferiu não entrar com processo contra a dupla. “Atrasavam muito, muito mesmo [os pagamentos]. Mas ia além da questão financeira. Eles eram grossos, incentivavam competição entre a gente, falavam de forma agressiva sobre nossa aparência, peso, roupas”, conta.
Zel acusa os empresários de falsificar sua assinatura e usar um e-mail paralelo (assim como o de Gustavo) para acertar os contratos. Ele, no entanto, não fez boletim de ocorrência.
“Saí de lá muito mal, eles tentavam a todo custo destruir nossa autoestima. Quando saí, fiquei um tempo afastado da internet. Tenho prova de tudo, da minha assinatura falsificada, dos valores alterados, mas, no meu caso, os valores eram menores e decidi não ir atrás. Demorei muito tempo para superar, agora estou em uma fase boa e preciso seguir em frente”, diz.
Os gêmeos Vinícius e Venâncio Brandão, que trabalham como modelos de passarela e influenciadores digitais no perfil Andróginos, também teriam sido lesados em cerca de R$ 500 mil e estão acionando a Hello Group na Justiça. Eles não quiseram conversar com a reportagem.
OUTRO LADO
Marcelo Proença foi contatado pela reportagem, mas preferiu se pronunciar através de seus advogados. As redes sociais e o site da Hello Group estão fora do ar há pelo menos uma semana. A advogada Jéssica Tavares, do escritório Nunes e Vieira, que representa Proença, enviou nota afirmando que “as alegações estão sendo apuradas” internamente e que a empresa “adotará as medidas cabíveis”. Leia abaixo a íntegra da nota.
“Diante das recentes menções e reportagens envolvendo a Hello Group, a empresa vem, por meio do Escritório Nunes e Vieira Sociedade de Advogados, o qual presta assessoria jurídica à empresa, esclarecer que tem conhecimento das alegações divulgadas e informa que todas estão sendo devidamente apuradas com responsabilidade, cautela e rigor técnico.
A Hello Group sempre pautou sua atuação empresarial pela legalidade, transparência e boa-fé nas relações contratuais e comerciais que estabelece. Ainda assim, por dever de diligência e compromisso com as melhores práticas, está sendo realizada uma análise interna detalhada acerca dos fatos noticiados.
Caso seja identificada qualquer irregularidade, a empresa adotará de forma imediata as medidas cabíveis, observando a legislação aplicável e os princípios que regem sua atuação. Por fim, a Hello Digital reforça seu respeito às instituições, aos parceiros comerciais e ao público em geral, e reafirma que eventuais controvérsias devem ser tratadas pelos canais adequados, evitando-se conclusões precipitadas.”
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