Feminicídios no PI: 37 casos em 2025 acende alerta e preocupa especialistas

O Piauí contabilizou 37 feminicídios em 2025, entre os meses de janeiro e o dia 16 de dezembro, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP). A maioria dos crimes foi registrada no interior do estado, que concentrou 29 casos, o equivalente a quase 80% do total.
De acordo com a SSP, Teresina aparece com nove ocorrências, liderando o ranking por município, seguida por Parnaíba, com seis feminicídios.
Os crimes no interior foram registrados nos seguintes municípios:
- Castelo do Piauí;
- Juazeiro do Piauí;
- Alagoinha do Piauí;
- Paquetá;
- Paulistana;
- Pio IX;
- Piracuruca;
- Dom Expedito Lopes;
- Francisco Santos;
- Itaueira;
- Campo Maior;
- Padre Marcos;
- Amarante;
- Colônia do Piauí;
- Barras;
- São João da Canabrava;
- Simões;
- Madeiro;
- Manoel Emídio;
- Várzea Grande;
- Esperantina.
Perfil das vítimas e dos autores
As estatísticas reforçam que a violência letal contra mulheres segue avançando fora da capital, onde o acesso à rede de proteção é mais limitado, apesar dos esforços das forças de segurança.
Dados da SSP apontam que a idade média das vítimas é de 36 anos, enquanto a idade média dos autores é de 38 anos. As informações desmontam a ideia de que o feminicídio atinge apenas mulheres mais velhas ou está restrito a relacionamentos longos.
A delegada Nathalia Figueiredo, do Núcleo de Feminicídio do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), destacou que os casos atingem mulheres de diferentes perfis.
“O feminicídio não escolhe vítima. Não tem idade, não tem classe social e não tem cor. Qualquer mulher pode estar sujeita a esse tipo de violência”, afirmou.
Foto: Mikaela Ramos/ Cidadeverde.com

Maioria das vítimas não denunciou agressões
Um dos dados mais preocupantes está no levantamento elaborado pela Gerência de Análise Criminal Estatística da SSP, por meio da Biografia da Vítima de Feminicídio do Piauí, divulgado em setembro de 2025.
O estudo revelou que 87,85% das mulheres assassinadas entre janeiro de 2022 e abril de 2025 não haviam registrado boletim de ocorrência nem solicitado medida protetiva contra os agressores.
Segundo a delegada Nathalia Figueiredo, o feminicídio representa o estágio final de um processo contínuo de violência.
“O feminicídio não começa no assassinato. Antes disso, a mulher já vive um contexto de violência, seja física, sexual, patrimonial ou psicológica. Por isso é importante que se denuncie, seja essa denuncia feita pela própria vítima ou por outra pessoa”, explicou.
Ela acrescentou que a violência psicológica lidera os registros de ocorrência no Estado e aparece de forma recorrente antes do feminicídio. “Hoje, muitas mulheres estão entendendo que humilhações, ameaças, controle excessivo e isolamento também são formas de violência. Não é só agressão física”, pontuou.
A delegada ressaltou ainda que grande parte dos crimes ocorre em relações íntimas de afeto, inclusive após o término.
“Ainda persiste uma mentalidade machista em que o homem enxerga a mulher como propriedade. Quando ela decide sair da relação, alguns autores não aceitam esse fim e partem para a violência extrema”, afirmou.
Foto: Arquivo Pessoal

Interior concentra casos e enfrenta mais vulnerabilidades
Para a socióloga e membro da Rede Observatórios da Segurança, Marcela Castro, a concentração dos feminicídios no interior do Piauí está diretamente relacionada à fragilidade da rede de proteção. “Quando observamos que até em Teresina, onde há mais serviços e delegacias, os números já são preocupantes, a situação nos municípios mais afastados se torna ainda mais grave”, avaliou.
A socióloga explicou que, em muitas cidades, existe apenas uma delegacia para atender toda a população, além da ausência de funcionamento 24 horas e dificuldades de acesso à informação, à internet e ao próprio Judiciário.
“Muitas mulheres não sabem a quem recorrer, enfrentam dificuldades no pós-denúncia e não encontram suporte para cuidar dos filhos ou se manter financeiramente, por esses motivos muitas vezes elas se calam e continuam nesse ciclo de violência”, acrescentou.
A socióloga também destacou que fatores culturais também influenciam nos crimes de feminicídio.“Nas regiões mais afastadas, a cultura patriarcal, a dominação masculina e a misoginia ainda são mais fortes, o que aumenta a vulnerabilidade dessas mulheres, que na maioria das vezes já cresceram em um contexto de menosprezo à mulher”, disse.
Ciclo da violência antecede o feminicídio
Especialistas alertam que o feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo de violência, identificado por sinais recorrentes, como:
- Controle sobre roupas, amizades e rotina;
- Ciúmes excessivos e acusações constantes;
- Ameaças, xingamentos, agressões e humilhações;
- Isolamento da família e dos amigos;
- Violência física, sexual ou patrimonial.
Segundo Nathalia Figueiredo, reconhecer esses sinais é fundamental.
“Jamais normalize a violência. Uma relação só é saudável quando traz felicidade para ambas as pessoas. E nunca duvide do seu agressor, porque ele pode executar as ameças que ele lhe fez. Não denunciar não é o caminho. A medida protetiva é um direito da mulher e pode salvar vidas. E essa rede de proteção não se estende apenas a mulher, mas também aos seus filhos”, reforçou.
Foto: Renato Andrade/Cidadeverde.com
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Como denunciar e buscar proteção
A SSP reforça que a denúncia pode ser feita em qualquer fase da violência, mesmo sem agressão física. Os principais canais são:
- Disque 180 – Central de Atendimento à Mulher (24 horas);
- 190 – Polícia Militar, em situações de emergência;
- WhatsApp da Diretoria de Proteção à Mulher (86 99463-1147) e o 0800-000-1673 (Protocolo “Ei Mermã, Não se Cale”) para denúncias e encaminhamento;
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM/DEAMGV);
- Casa da Mulher Brasileira, em Teresina;
- Aplicativos e canais digitais da rede de proteção (Salve Maria, Gov.pi Cidadão, JuLIA (TJ-PI), e outros);
As denúncias podem ser feitas de forma anônima, inclusive por terceiros.
Prevenção exige atuação integrada
As especialistas defendem que a redução dos feminicídios exige ações que vão além da repressão policial. A delegada Nathalia Figueiredo, do Núcleo de Feminicídio do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), destacou que o enfrentamento desse tipo de crime depende, sobretudo, de ações preventivas e educativas desde a infância.
“A violência doméstica e familiar é reflexo de uma sociedade machista. Se uma criança cresce em um contexto de violência, ela tende a normalizar esse comportamento. O menino que vê o pai agredir a mãe pode reproduzir essa conduta no futuro, assim como a menina pode achar natural sofrer violência em suas relações”, ressaltou.
Segundo a delegada, a mudança desse cenário exige um trabalho contínuo de conscientização. “A educação dos nossos filhos é primordial para que consigamos romper esse ciclo. Não é só prender depois que o crime acontece; é preciso atuar na raiz do problema, que é a mudança de mentalidade”, completou.
O mesmo entendimento é compartilhado pela socióloga Marcela Castro. Para ela, o combate à violência contra a mulher passa por políticas públicas integradas.
“É preciso investir em educação, prevenção, assistência social, saúde e no fortalecimento da rede de acolhimento. A violência doméstica é reflexo de uma sociedade ainda machista, e essa mentalidade precisa ser desconstruída”, concluiu.
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