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Em Teresina, corrida aproxima pai e filho com deficiência e inspira inclusão

O que começou como uma brincadeira em ladeiras próximas de casa se transformou em um momento de conexão, cuidado e aprendizado para a família do servidor público Rafael Hércules. Pai de Isaac, de 12 anos, que possui limitações locomotoras, Rafael encontrou na corrida, ao lado do filho que utiliza cadeira de rodas, uma forma de mobilidade, convivência e fortalecimento emocional.

“A nossa rotina foi mudando à medida que o Isaac crescia. Quando ele era menor, eu e minha esposa, Suzana, andávamos com ele o tempo todo no colo. Era o nosso jeito de dar mobilidade, mas chegou um ponto em que o peso e o tamanho dele não permitiam mais”, relembrou.

A adaptação à cadeira de rodas não foi imediata. Segundo Rafael, houve resistência da família em aceitar o recurso. “Nós tínhamos dificuldade em aderir à cadeira de rodas, parecia difícil aceitar aquela realidade. Mas hoje ela é fundamental no deslocamento do Isaac”, pontuou.

Em 2017, a família enfrentou um novo desafio. Rafael descobriu um tumor na coluna e precisou passar por uma cirurgia delicada. A partir daí, surgiu uma relação ainda mais simbólica entre pai e filho.

“Acabamos nos tornando dependentes um do outro. Hoje, eu preciso me apoiar na cadeira do Isaac para proteger minha cirurgia e, em troca, tenho o orgulho de conduzi-lo pelas avenidas”, disse.

Foto: Arquivo Pessoal

Início das corridas

As primeiras corridas aconteceram de forma espontânea, nas ladeiras próximas de casa. A primeira corrida em competições ocorreu em 2023, quando um instituto promoveu a primeira corrida voltada para pessoas com deficiência.

“No início, percebemos que ele dava risada, que gostava do vento no rosto. Depois fomos entrando no ritmo e, em 2023, corremos 3 quilômetros. Foi ali que a corrida pegou a gente de jeito”, destacou.

Desde então, pai e filho mantêm a prática duas ou três vezes por semana, percorrendo a Avenida Marechal Castelo Branco, a Avenida das Hortas e, principalmente aos domingos, na Avenida Raul Lopes, quando a via é fechada para veículos.

Rafael relatou que os maiores ganhos não foram físicos, mas emocionais. Ele explica que a família vivia uma rotina marcada pelo uso excessivo de telas.

“Pelas limitações dele, a gente acabava deixando o Isaac muito tempo no celular, ouvindo música para ficar calmo. Na pista, ele vive o momento. E o reflexo apareceu dentro de casa, isso mudou o humor dele, ele ficou menos irritado, e conseguimos reduzir o tempo de telas aos poucos no dia a dia da família, o que foi um alívio para todo mundo’, contou.

Apesar dos benefícios, os desafios urbanos ainda são constantes. Rafael chama atenção para a falta de acessibilidade nas vias. “A gente chega para estacionar e encontrar motos ou carros parados sobre a faixa zebrada das vagas para cadeirantes. Nem toda calçada tem rampa, e às vezes o chão é tão irregular que a roda trava em qualquer desnível’, disse.

Mesmo assim, a experiência tem inspirado outras famílias.

“Convidei outro pai atípico para fazer a experiência e ver se o filho dele gostava. O pequeno amou, e hoje ele também corre com o filho. E essa é a mensagem que quero deixar para outros pais atípicos. Faça a experiência e veja se a criança gosta. Se gostar, vale super a pena”, finalizou.

Para Rafael e sua família, a corrida deixou de ser apenas exercício físico e se tornou um espaço de encontro, aprendizado e cuidado mútuo.

cidadeverde

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