Geral

Casos de maus-tratos a animais na internet crescem 120%; expõem submundo digital

Quatro meses após o caso do “Cão Orelha” chocar o Brasil e despertar uma onda de indignação nacional, o debate sobre a crueldade animal ganha contornos ainda mais sombrios no ambiente digital. Dados da Social Media Animal Cruelty Coalition (SMACC) revelam que, apenas em 2024, foram identificados mais de 83 mil links com conteúdos de tortura animal em grandes plataformas. No Brasil, o cenário é alarmante: registros da Polícia Civil de São Paulo indicam um aumento de 120% nos casos de maus-tratos veiculados na internet entre 2024 e 2026.

Neste “Abril Laranja”, mês dedicado à prevenção da crueldade contra animais, as autoridades acendem um alerta vermelho. O que antes eram vídeos isolados de negligência deu lugar a transmissões ao vivo de torturas sádicas, incluindo o uso de liquidificadores, maçaricos e afogamentos, realizadas para audiências que chegam a 800 pessoas em servidores fechados.

Para a delegada Lisandrea Salvariego, Chefe do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD) da Polícia Civil de SP, a violência mudou de patamar.

“Hoje, além do aumento em números, percebemos a maldade envolvida. A violência de ontem já não serve para hoje. É preciso introduzir algo novo na tortura para manter o interesse”, explica a delegada, que coordena uma equipe de monitoramento 24 horas nas redes.

Um dos maiores obstáculos para salvar as vítimas é a lentidão das plataformas digitais. Segundo Salvariego, as Big Techs não colaboram no tempo necessário. “Estamos lidando com vítimas. No caso dos animais, temos pouco tempo para salvar. Eles demoram para derrubar o servidor e para nos informar os dados dos agressores”, lamenta. Mesmo com a implementação do ECA Digital, a polícia afirma não ter notado melhora na moderação de conteúdo ou na proteção de menores.

Para combater esse cenário, a organização brasileira Ampara Animal lançou a campanha global Animal Safety. A iniciativa busca pressionar as plataformas digitais a adotarem medidas proativas contra conteúdos que exibem ou incentivam a violência.

Como parte da estratégia, a campanha apoia o Projeto de Lei 1043/2026, de autoria do deputado federal Matheus Laiola. O PL cria uma política nacional para prevenir e reprimir crimes cibernéticos contra animais, tipificando não apenas os maus-tratos, mas também a gravação, o compartilhamento e a monetização desses conteúdos, inclusive os gerados por inteligência artificial. As penas podem chegar a 12 anos de prisão.

O texto também prevê punições rigorosas para as Big Techs: multas de até 2% do faturamento e até a suspensão das atividades em caso de descumprimento na remoção de conteúdos ilegais.

Conexão com movimentos extremistas e “Redpill”

Rosangela Gebara, gerente de projetos da Ampara Animal e responsável pela campanha, explica que a tecnologia para barrar esses crimes já existe, mas falta vontade política das empresas. “As plataformas já usam ferramentas de Brand Safety para proteger marcas de conteúdos indevidos. Queremos que usem essa mesma tecnologia para o Animal Safety (segurança animal)”, afirma.

Gebara também aponta um elo perturbador entre a tortura animal e a ascensão de movimentos como Redpill e Incel. “Muitas vezes lançam desafios para que adolescentes provem sua ‘masculinidade’ ou coragem através da crueldade. É uma dessensibilização que afeta a formação de futuros adultos. Precisamos de uma educação humanitária urgente nas escolas para criar empatia”, ressalta.

O perfil dos criminosos é majoritariamente de adolescentes e jovens entre 11 e 21 anos. Segundo a polícia, o sadismo contra animais é frequentemente a “porta de entrada” para crimes contra humanos. “Absolutamente todos os autores que cometem indução à automutilação, ao suicídio e até estupros virtuais passaram necessariamente pelos maus-tratos a animais”, revela Salvariego.

A delegada alerta que esses crimes ocorrem majoritariamente nas madrugadas, entre 23h e 4h.

“A dica de ouro para os pais é: não deixe seu filho dormir com o celular. Criança e adolescente não têm filtro para esse submundo. Muitas vezes o pai acha que o filho é calmo e está seguro no quarto, mas ele está se tornando um adolescente infrator no ambiente virtual.”

Como denunciar

A orientação das autoridades é clara: a denúncia é a única forma de interromper o ciclo de violência.

  • Comunique a plataforma, mas não pare por aí
  • Procure os órgãos oficiais: Em São Paulo, o Disque Denúncia (181) permite relatos anônimos
  • Preserve provas: Tire prints da tela, anote URLs e, se possível, faça um Boletim de Ocorrência

“Recentemente prendemos um autor que torturou e matou mais de 100 gatos. Isso só foi possível porque uma ONG fez um boletim de ocorrência. A denúncia salva vidas”, conclui a delegada Salvariego.

cidadeverde

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo