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Um ano depois; tragédia causada por chuva em Picos ainda marca famílias

Em 13 de janeiro de 2025, o município de Picos, no Sul do Piauí, foi atingido por um forte temporal que provocou alagamentos, destruição de imóveis e deixou duas pessoas mortas. Uma das vítimas foi o gerente da Caixa Econômica Federal Marcondes Barros, levado pela enxurrada no bairro Ipueiras, uma das áreas mais afetadas pela chuva.

Um ano depois, a esposa de Marcondes relembra a noite da tragédia e afirma que as marcas daquele dia ainda estão presentes. “Eu vivi literalmente o fim da vida”, disse.

Naquela noite, a chuva caiu de forma intensa e contínua. Ao perceber que a água começava a invadir a residência, o casal decidiu sair de casa e buscar abrigo na casa de um vizinho, que mora em frente. No momento em que Marcondes abriu o portão da garagem, a estrutura não resistiu à força da correnteza e caiu sobre os dois. Eles ainda tentaram se segurar um no outro, mas um muro estourou logo em seguida.

“Quando a parede caiu, eu fui levada para um lado. Ele foi levado para o outro”, relembra a esposa.

A partir dali, eles perderam contato.

Sobreviver para contar

Arrastada pela água, a esposa de Marcondes conseguiu se segurar em objetos que eram levados pela correnteza até alcançar uma janela. Ela arrancou a tela e se agarrou à grade, onde permaneceu por horas, enfrentando frio intenso, chuva e o risco constante de a estrutura da casa não suportar.

“Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo. A dor e o desespero eram maiores do que tudo”, relatou.

Ela conta que passou a observar apenas o nível da água, tentando entender se estava subindo ou descendo, enquanto rezava e fazia exercícios de respiração para não perder as forças.

O resgate

O resgate foi feito por um vizinho, identificado como Lucas, que tentou diversas vezes entrar na casa. Amarrado por cordas e com ajuda do irmão, ele conseguiu chegar até a janela onde a esposa de Marcondes estava presa.

Com as mãos travadas pelo frio e pelo esforço, ela não conseguia se soltar sozinha. O vizinho precisou ajuda-la a retirar dedo por dedo até conseguir colocá-la nas costas e atravessar a correnteza.

“Ele perguntou se eu confiava nele. Eu disse que sim”, relembra.

Mesmo após ser resgatada, a esposa de Marcondes acreditava que ele também estivesse vivo, se segurando em algum ponto, assim como ela conseguiu fazer.

“Isso foi o que me manteve ali. Eu pensava nos meus filhos, nas pessoas que me amam. Eu achava que ele também estava lutando.”

Horas depois, veio a confirmação.

O corpo de Marcondes Barros foi encontrado por equipes do 4º Grupamento de Bombeiros Militar de Picos, por volta das 4h30 da madrugada do dia 14 de janeiro, ele havia sido levado pela enxurrada. Segundo familiares, Marcondes não sabia nadar.

Quem era Marcondes

Marcondes Barros tinha 53 anos, era formado em Administração, bancário há 18 anos, aprovado em sete concursos públicos ao longo da vida. O primeiro chamado foi para a Caixa Econômica Federal, onde construiu carreira e se tornou gerente.

Era devoto de Nossa Senhora de Fátima, flamenguista, casado com Maria do Socorro Santana Barros e pai de Caroline e Marcondes Júnior. Segundo a esposa, o casal vivia uma das melhores fases da vida.

“Nós estávamos bem. Os filhos bem criados, a vida organizada. Era um casamento sólido, de parceria.”

Um ano depois

Passado um ano, a dor permanece. A esposa afirma que desenvolveu medo de chuva e que qualquer mudança no tempo ainda traz lembranças da tragédia.

“Quando o céu escurece, eu fico em alerta. É muito difícil.”

Ela diz que segue em frente pelos filhos, tentando manter vivo tudo o que o marido construiu.

Um ano após a tragédia, a esposa de Marcondes afirma que a fé tem sido um dos principais apoios para seguir em frente. Devotos de Nossa Senhora de Fátima, ela conta que, mesmo durante o temporal, se manteve em oração enquanto lutava para sobreviver.

A religiosidade, segundo ela, foi decisiva naquele momento e continua sendo essencial no processo de luto. Entre os poucos objetos preservados após a enxurrada, um quadro de Nossa Senhora de Fátima, que trazia o nome de Marcondes e havia sido um presente, permaneceu intacto, apesar da lama e da destruição provocadas pela chuva.

Fotografias e outros pertences foram perdidos. Desde o ocorrido, ela não conseguiu voltar a morar na residência atingida, relata traumas relacionados à chuva e diz que, além da fé, faz acompanhamento terapêutico para lidar com as marcas deixadas pela tragédia.

Para a família de Marcondes, a data não é apenas uma lembrança. É uma ausência diária.

A cidade e o alerta

O temporal de janeiro de 2025 mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, Exército Brasileiro, por meio do 3º Batalhão de Engenharia de Construção, e da Prefeitura de Picos. Bairros como Ipueiras, Emaús e Canto da Várzea ficaram alagados, com famílias desabrigadas e grandes prejuízos materiais.

Por: Edielson Mota

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