Colégio das Irmãs completa 120 anos de história na educação em Teresina

Fundado em 1906, o Colégio Sagrado Coração de Jesus, o Colégio das Irmãs, em Teresina, marcou a história da educação no Piauí, especialmente na formação de mulheres. A instituição foi criada pelas Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena, congregação fundada na Itália por Madre Savina Petrilli, em 1873. Ao longo das décadas, o colégio passou por mudanças na estrutura física, no ensino e nos costumes, mantendo a atuação religiosa como parte de sua proposta educacional.
A chegada das religiosas a Teresina ocorreu em 6 de agosto de 1906, após uma viagem de 11 dias desde Belém, no Pará, onde a congregação havia iniciado suas atividades no Brasil, em 1903. As irmãs vieram a convite do então bispo da capital piauiense, Dom Joaquim Antônio de Almeida, para trabalhar na educação de crianças e adolescentes.
Segundo a irmã Amparo Machado, diretora-presidente da Rede Saviniana, a escola começou a funcionar em outubro daquele ano, em uma casa simples, na então Rua Bela. A estrutura era precária, e as religiosas enfrentaram dificuldades de adaptação ao clima e às condições locais.
“Encontraram o clima, os bichinhos que elas não sabiam o que era, não tinha cama. E elas contam essa dificuldade de ter que aprender a dormir em rede, porque elas não sabiam”, destacou a irmã Amparo.
No início, havia apenas uma aluna matriculada. Em poucos meses, o espaço ficou insuficiente para as atividades. A escola passou pela Chácara Tabajaras, onde hoje funciona o Convento São Benedito, até chegar, em 1907, ao endereço na região da atual Avenida Frei Serafim.
Escola ampliou acesso à educação feminina
Foto: Ascom CSCJ

No início do século XX, o acesso das mulheres à educação formal era limitado. Segundo o arquiteto e ex-aluno Carlos Kaiser, durante o século XIX, o ensino destinado às mulheres era oferecido principalmente nas casas e se concentrava em leitura, escrita, matemática básica e atividades domésticas.
“Todo o século XIX, a educação voltada para as mulheres era uma educação muito incipiente, basicamente era feita nas casas, e era ensinada às mulheres a escrever, ler, matemática básica e atividade celular. Em 1931, através do decreto 1213, foi equiparado o ensino aqui do Colégio de Irmãs ao ensino da escola normal. O Colégio de Irmãs é de fato um marco dentro da educação voltada para as mulheres”, explicou o arquiteto.
O Colégio das Irmãs ampliou essa formação ao oferecer disciplinas como línguas estrangeiras, música e conteúdos culturais. Francês e italiano estavam entre os idiomas ensinados nos primeiros anos da instituição.
“Mesmo nos primeiros anos da escola, as irmãs já ensinavam três línguas. Ensinavam o francês, que era a grande língua da época, o italiano, de onde elas vinham, dominavam a cultura italiana, e o nosso português. Então a escola ensinava línguas, ensinava pintura, ensinava música. Já nos primeiros anos, 1907, 1908, as irmãs já vão acolhendo também aquelas meninas que não tinham condição de pagar”, explicou irmã Amparo.
A escola também passou a receber meninas cujas famílias não tinham condições de pagar pelo ensino. Em 1931, por meio do Decreto nº 1.213, a instituição teve seu ensino equiparado ao da Escola Normal, conforme relatado por Kaiser.
A trajetória do colégio acompanhou mudanças na educação e nos costumes. Na década de 1970, a adoção da calça comprida no uniforme, durante a gestão da irmã Maria do Socorro Franco de Sá, marcou uma transformação na rotina das estudantes.
Foto: Ascom CSCJ

A médica Araci Castelo Branco, ex-aluna e antiga professora da instituição, lembra que sua turma foi a última formada exclusivamente por meninas. Ela também destaca a atuação das religiosas como professoras de diferentes disciplinas.
Depois de concluir os estudos, Araci trabalhou no próprio colégio e conciliou a atividade docente com o curso de Medicina até deixar as aulas. A ex-aluna também recorda as atividades sociais e religiosas desenvolvidas pelas irmãs, incluindo ações com meninas em situação de rua e idosos.
Para ela, a formação recebida ultrapassou o conteúdo acadêmico e influenciou sua trajetória pessoal e profissional. Araci afirma que valores como ética, integridade e espiritualidade continuam presentes nas referências transmitidas entre gerações de sua família.
“E esse foi o meu primeiro emprego. Eu fiquei aqui no colégio dando aula até não ter mais condições de conciliar o curso de medicina com a atividade de dar aula. A gente ia para o Memorere e para atividades também lá que elas tinham com meninas de rua, com idosos. Nós temos essa formação da integridade moral e da espiritualidade como um fator determinante na vida da gente”, destacou a média Araci.
Capela reúne histórias de estudantes e famílias
Foto: Ascom CSCJ

A capela do colégio é outro espaço importante na história da instituição. A construção começou em 1919 e foi concluída seis anos depois. De acordo com a irmã Nídia Machado, ex-diretora da Rede Saviniana, o local ocupa uma posição central na vida escolar e religiosa.
Além das celebrações e momentos de oração, a capela guarda histórias pessoais de antigos alunos. É o caso de Ana Caroline e Márcio, que estudaram no colégio, começaram a namorar durante um ensaio para a crisma e se casaram no mesmo espaço, em 2009, após quase dez anos de relacionamento.
“A gente estava no ensaio da Crisma. Estava lá fora, estamos namorando? Estamos. Decidimos assim. Olhou pra cima, olhou assim. Essa capela é linda, né? Eu disse, eu adoro vir aqui rezar. Ele disse, a gente vai casar aqui? Literalmente com 10 minutos de namoro. A gente voltou pra casar aqui com quase 10 anos de namoro, em 2009”, contou Ana Caroline.
O casal afirma que a formação religiosa recebida na escola também influencia a educação dos filhos. A capela continua sendo frequentada por estudantes antes das aulas e por famílias que mantêm vínculos com a instituição.
A história do Colégio das Irmãs reúne, assim, diferentes gerações de estudantes, religiosas e profissionais que passaram pela instituição. Entre as mudanças na educação feminina, nos uniformes e na estrutura escolar, a formação acadêmica e religiosa permanece como parte da identidade construída ao longo de sua trajetória em Teresina.
Foto: Arquivo Pessoal

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