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Por que cada onda de calor deixa sua conta de luz mais cara

A última semana de setembro de 2026 antecipou o que o consumidor deve encontrar nos próximos meses. Uma onda de calor atingiu oito estados, entre eles Mato Grosso, Goiás e São Paulo, com temperaturas até 5°C acima da média e algumas localidades acima de 40°C. O Inmet prevê que outubro continue com calor acima do normal em grande parte do país, e o Cemaden estima ao menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro, num cenário de El Niño que ganha força. Para quem paga a conta de luz, o tema deixou de ser só meteorológico, porque cada grau a mais pesa no ventilador, no ar-condicionado, na geladeira e, no fim do mês, no orçamento da casa. O mecanismo é simples. Com o calor, muita gente liga os aparelhos de refrigeração ao mesmo tempo, em geral no meio da tarde, e o sistema elétrico precisa entregar um pico de potência. Se o calor elevar a demanda e as chuvas não sustentarem as vazões, o ONS pode precisar acionar usinas térmicas, mais caras, para preservar os reservatórios e atender os horários críticos. Essas usinas geram energia queimando combustíveis, e o custo extra chega ao consumidor pelas bandeiras tarifárias. Em 2026, a bandeira amarela vigorou de maio a setembro, com acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, e não houve acionamento da vermelha. Em 2025, a vermelha foi acionada de junho a novembro. Em outubro, a bandeira verde voltou, sem custo adicional, graças ao aumento das chuvas no Sul e no Sudeste.

Os indicadores mostram que o consumo segue pressionado. O ONS projetou alta de 5,6% na carga de janeiro de 2026 sobre o mesmo mês do ano anterior. Para setembro, a projeção é de crescimento de 5,9% no Sistema Interligado Nacional (85.118 MWmed), com avanço em todos os subsistemas. No Nordeste a alta prevista é de 7,1%, no Norte e no Sul de 6,5% e no Sudeste/Centro-Oeste de 5,3%. Quanto ao calor, o Inmet aponta que os maiores desvios de temperatura em outubro devem ocorrer no Centro-Oeste e no Sudeste. Já o Sul tem histórico de picos no verão: em fevereiro de 2025, a carga da região cresceu 8,6% sobre o ano anterior, impulsionada pelo ar-condicionado. Como referência nacional, a demanda instantânea chegou a 106.532 MW em 26 de fevereiro de 2025. Dentro de casa, os campeões de consumo são conhecidos. Segundo a Equatorial, o ar-condicionado pode representar até 40% da conta e a geladeira cerca de 30%. A Light calcula que um aparelho de 9.000 BTU ligado 8 horas por dia pode equivaler a cerca de metade do consumo da residência. Na mesma comparação, um ar-condicionado ligado 10 horas por dia durante 20 dias gasta em média 116,8 kWh no mês, contra 49,5 kWh do chuveiro elétrico numa família de quatro pessoas. A Cemig lembra que, no verão, aparelhos de alta potência como fritadeira elétrica, chuveiro e ar-condicionado pesam mais, e que a geladeira trabalha por mais tempo quando a temperatura sobe e a porta é aberta toda hora.

A boa notícia é que há muito o que fazer sem abrir mão do conforto. No ar-condicionado, a Equatorial recomenda manter a temperatura em 23 graus e preferir modelos Inverter com Selo Procel, e a Cemig acrescenta manter portas e janelas fechadas e priorizar a ventilação natural antes de ligar o aparelho. O ventilador consome bem menos energia que o ar-condicionado. No chuveiro, a chave na posição verão pode render economia de cerca de 30% em relação à potência máxima. Na geladeira, vale conferir a borracha de vedação e evitar guardar alimentos quentes, que fazem o motor trabalhar mais. Também ajuda trocar lâmpadas antigas por LED, que reduz o consumo de iluminação em até 80%, e tirar da tomada o que está em stand-by. Vale lembrar que economizar em casa não muda a cor da bandeira, que vale para todo o sistema, mas muda o tamanho da sua fatura. O cenário pede otimismo com os pés no chão. Há folga hídrica no momento: o Sul tem 93,6% de energia armazenada nos reservatórios, e especialistas dizem que não há risco de apagão agora, embora o maior uso de térmicas possa pressionar tarifas e inflação. A conta pode vir adiante: um estudo da Ampere Consultoria e da TR Soluções estima que um super El Niño poderia elevar as tarifas de baixa tensão em até 4,5% em 2027, com bandeiras vermelhas entre julho e outubro. As saídas já estão em andamento, com a Aneel discutindo o primeiro leilão de baterias, mais energia solar distribuída e, como defendem especialistas, programas de resposta da demanda e medidas para reduzir o uso de térmicas no início da noite. Quanto mais o consumo for deslocado para horas de menor pressão e quanto mais eficientes forem os aparelhos, menos o calor dependerá da queima de combustível para ser atendido, e mais leve fica a conta.

cidadeverde

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