Projeto do Cerrado é reconhecido pela ONU como ‘Referência de Restauração’

A iniciativa brasileira Araticum – Restauração do Cerrado Brasileiro recebeu da Organização das Nações Unidas (ONU) o título de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship), reconhecimento concedido a iniciativas consideradas exemplos de recuperação de ecossistemas em grande escala e de longo prazo.
Com a escolha, anunciada no fim de agosto, o Brasil se tornou o único país a ter dois reconhecimentos desse tipo. O primeiro veio em 2022, com o Pacto Trinacional pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa conjunta de Brasil, Argentina e Paraguai.
Além da iniciativa brasileira, foram reconhecidos projetos na Arábia Saudita e no Sahel, região da África onde o projeto abrange Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger. Juntos, os três assumem o compromisso de colocar quase cinco milhões de hectares em restauração até 2030.
As Referências da Restauração Mundial fazem parte da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas (2021-2030), liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O reconhecimento destaca iniciativas que possam servir de referência para esforços de recuperação de ecossistemas em outras partes do mundo.
O que é a Araticum
Criada em 2020, a Araticum, Articulação pela Restauração do Cerrado, é uma rede colaborativa que atua para promover e monitorar a restauração ecológica do bioma. A iniciativa nasceu com a meta de contribuir para a restauração de dois milhões de hectares até 2030.
A rede reúne mais de 180 organizações e envolve povos indígenas e quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, empresas e instituições governamentais. As ações apoiadas pela iniciativa alcançam nove estados brasileiros e incluem regeneração natural, semeadura direta, restauração ecológica e sistemas agroflorestais com espécies nativas.
A atuação não se limita à recuperação de áreas degradadas. A Araticum faz monitoramento territorial, produz e dissemina conhecimento sobre restauração, trabalha para ampliar as áreas e os recursos disponíveis e atua na construção de políticas públicas. Também busca fortalecer as organizações locais e incluir povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares nos diferentes elos da cadeia da restauração, combinando conhecimentos tradicionais e locais com a pesquisa científica.
Mais de 27 mil hectares em processo de restauração já foram mapeados pela iniciativa. Sementes de mais de 150 espécies de plantas nativas foram coletadas e utilizadas nas ações, contribuindo para uma cadeia produtiva que inclui coletores de sementes, viveiros, técnicos de restauração e serviços de monitoramento.
O trabalho combina ainda a restauração ecológica com instrumentos como pagamento por serviços ambientais, agricultura sustentável, sistemas agroflorestais e planejamento territorial.
O esforço ganha dimensão diante da situação do Cerrado. Com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, o bioma já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, principalmente pela conversão de terras em grande escala. A degradação afeta a biodiversidade, a disponibilidade de água, a produção de alimentos e a capacidade de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
“Restaurar o Cerrado significa cuidar do nosso clima, da nossa água e do nosso futuro”, afirmou Fabrícia Santarém, coordenadora da Araticum e coletora de sementes e integrante da comunidade tradicional geraizeira. Segundo ela, a escolha como Referência da Restauração Mundial reafirma a necessidade de investir na recuperação de florestas, savanas e campos nativos e no fortalecimento das organizações comunitárias que atuam na conservação.

Brasil tem dois reconhecimentos
O primeiro reconhecimento com participação brasileira ocorreu em 13 de dezembro de 2022, quando a ONU anunciou as dez primeiras Referências da Restauração Mundial.
Entre elas estava o Pacto Trinacional pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa de Brasil, Argentina e Paraguai. Na época, cerca de 700 mil hectares já haviam sido restaurados. A meta era alcançar um milhão de hectares até 2030 e 15 milhões até 2050.
O trabalho reúne centenas de organizações dos três países para recuperar a Mata Atlântica. As ações incluem recuperação da vegetação nativa, criação de corredores para a fauna e proteção de fontes de água.
Os dez princípios da restauração
As iniciativas reconhecidas como Referências da Restauração Mundial incorporam os dez princípios que orientam a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas. Eles estabelecem que a restauração:
- contribua para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e para as metas internacionais relacionadas ao clima, à biodiversidade e ao combate à desertificação;
- tenha governança inclusiva e participativa, com justiça social e equidade;
- contemple diferentes graus e tipos de ações de restauração, de acordo com as necessidades de cada ecossistema;
- busque o maior nível possível de recuperação da biodiversidade, da saúde e da integridade dos ecossistemas e do bem-estar humano;
- enfrente as causas diretas e indiretas da degradação dos ecossistemas;
- incorpore diferentes formas de conhecimento, incluindo os saberes científicos, indígenas, tradicionais e locais;
- estabeleça objetivos e metas ecológicas, culturais e socioeconômicas claros para o curto, médio e longo prazo;
- seja adaptada ao contexto ecológico, cultural e socioeconômico local e considere a paisagem terrestre ou marinha mais ampla;
- inclua monitoramento, avaliação e adaptação das ações durante e depois das intervenções;
- seja apoiada por políticas e medidas capazes de garantir sua continuidade no longo prazo e favorecer sua ampliação e reprodução em outros locais.
Mais dois reconhecimentos em 2026
A ONU concedeu o título também ao Programa Nacional de Reflorestamento da Arábia Saudita, que pretende restaurar 2,5 milhões de hectares e plantar 215 milhões de árvores até 2030. Até junho de 2026, um milhão de hectares de terras degradadas estava em processo de restauração e 159 milhões de árvores haviam sido plantadas.
A terceira iniciativa escolhida foi a Iniciativa Integrada de Resiliência do Sahel, desenvolvida em Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger. Liderado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, o trabalho combina recuperação de terras, manejo de solo e água e apoio às populações locais.
Até junho, mais de 335 mil hectares haviam sido restaurados. A meta é alcançar 470 mil hectares até 2030. De acordo com o Pnuma, mais de 4 milhões de pessoas já foram beneficiadas pela iniciativa.
A Araticum, o programa saudita e a iniciativa do Sahel se somam às Referências da Restauração Mundial reconhecidas desde 2022. Ao todo, 30 iniciativas já receberam o título. Juntas, elas somam quase 20 milhões de hectares em processo de restauração e compromissos para recuperar cerca de 75 milhões de hectares até 2030.
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