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Teresina Segredos e Histórias: memórias e mistérios escondidos nos seus 174 anos

Todos os dias, milhares de pessoas circulam por ruas, igrejas, praças, casarões e construções históricas de Teresina sem conhecer as histórias que esses lugares guardam. Aos 174 anos, a capital reúne documentos, marcas arquitetônicas, memórias e narrativas que atravessaram gerações. No programa especial da TV Cidade Verde, em comemoração ao aniversário da capital, saiba um pouco mais sobre as histórias e os mistérios escondidos na origem da capital

Parte dessa história começa antes da criação de Teresina. A população estava concentrada na antiga Vila do Poti, próxima aos rios e sujeita a inundações. A escolha de um novo território levou a capital para a Chapada do Corisco, entre os rios Parnaíba e Poti.

O então presidente da província, Conselheiro Saraiva, foi responsável pelo projeto de transferência da capital. A Igreja de Nossa Senhora do Amparo se tornou um dos primeiros símbolos da nova cidade.

A pedra fundamental foi lançada em 25 de dezembro de 1850. Dois anos depois, a capela-mor e as sacristias estavam prontas. A igreja foi inaugurada em dezembro de 1852, no primeiro Natal da nova capital. A construção, porém, passou por diferentes etapas, e as torres só começaram a ser erguidas em 1952, cem anos depois da inauguração da matriz.

Foto: Acervo Tempo e Cultura

A lenda de Nossa Senhora do Amparo

A imagem de Nossa Senhora do Amparo também faz parte das histórias ligadas à transferência da capital. Uma imagem encontrada na Capelinha do Poti em 1827 permaneceu naquele local. Outra foi encomendada pelo Padre Mamede, a pedido do Conselheiro Saraiva, para a nova cidade.

“A imagem de Nossa Senhora do Amparo encontrada na Capelinha do Poti em 1827, quando a criação da paróquia já existia. Esta que nós temos ali é a chamada imagem do Conselheiro de Saraiva, imagem do Padre Mamede. Foi o Padre Mamede que encomendou a pedido do Conselheiro de Saraiva esta imagem. Ele respeitou então a imagem que estava no Poti, não tirou de lá, e essa foi feita exclusivamente para Teresina, então se fazia uma certa confusão”, explicou o atual pároco José de Pinho.

A semelhança entre as imagens contribuiu para o surgimento de uma narrativa popular segundo a qual Nossa Senhora do Amparo desaparecia de um local e reaparecia em outro.

“Como o pessoal via a semelhança entre as duas imagens, acho eu, que se deduzia uma volta quase que simultânea da imagem, mas nada de concreto, apenas imaginação popular”, afirmou o padre.

A história não possui comprovação documental, mas permanece como parte do imaginário relacionado à mudança da capital.

A Igreja do Amparo também guarda livros de óbitos. Há relatos sobre a existência de um antigo cemitério nas proximidades da igreja, mas a informação não é confirmada pela documentação disponível.

“Era comum existir a igreja e o cemitério, mesmo porque a igreja era guardiã dos cemitérios, ela quem guardava, ela quem registrava o óbito. Nós temos inclusive livros de óbito guardados aqui na igreja do Amparo, nosso arquivo, e era tudo muito próximo. Há quem dissesse, mas eu não posso lhe afirmar, que aqui na lateral se pode verificar a existência de um cemitério do passado, porém o cemitério que nós temos notícia oficial da construção da cidade é mesmo o cemitério de São José”, destacou o padre.

O homem que ajudou a construir Teresina

Além de Conselheiro Saraiva, outro personagem teve participação na construção da nova capital: João Isidoro da Silva França. Português e mestre de obras, ele aparece nos documentos de Teresina desde 1852, quando já vivia na Vila Nova do Poti. No ano seguinte, recebeu a naturalização brasileira.

Segundo o arquito e urbanista Carlos Kaiser, João Isidoro chegou ao Brasil na década de 1840 e atuou em diferentes cidades antes de ser convidado por Saraiva para trabalhar nas obras públicas do Piauí.

“Lá em 1840, na década de 1840, ele veio para o Brasil conseguir achar, localizar ele sendo padrinho de um batismo, na época era chamado Vila Príncipe, que hoje é atual Caicó, no Rio Grande do Norte. E aí em seguida ele veio atuando, a gente viu atuações dele em Oeiras, em outras cidades do sul do Piauí. E aí ele foi chamado a ser o mestre de obras públicas, a convite do conselheiro Saraiva. Então fez uma planta, uma primeira planta da cidade, essa planta engloba aqui a praça, alguns quarteirões, ao norte, a sul e a leste. E aí ele colocou ali, principalmente aqui ao redor da praça, os prédios institucionais. Então o governo do estado estava aqui, o Tesouro estava aqui, o Fisco estava aqui, estava um pouco mais distante o quartel de primeira linha. Então tudo do planejamento dele”, explicou Kaiser.

João Isidoro conduziu as obras da Igreja do Amparo. A construção da nova capital, porém, envolveu também trabalhadores, pessoas escravizadas e membros da comunidade.

Pesquisas sobre o mestre de obras encontraram documentos sobre os últimos anos de sua vida. Um registro indica informações sobre a família e o sepultamento.

“Geralmente pessoas comuns apenas se anotavam o nome da pessoa e às vezes o nome e a causa mortes. Mas no caso dele, a gente percebe uma anotação indicando que as expensas, por exemplo, do enterro dele, o sepultamento dele era diferenciado, já estava pago desde 1852, que é o ano em que ele se naturaliza brasileiro finalmente”, afirmou Carlos Kaiser.

João Isidoro morreu em São Luís, em 3 de abril de 1859, aos 65 anos. Um registro atribui a morte à chamada hidropesia do peito.

As três igrejas que formam um triângulo

Foto: Reprodução

Entre os segredos e as histórias da fundação da capital do Piauí a 174 anos, uma deles ainda não tem resposta: o triângulo equilátero que as três principais Igrejas Católicas do centro da cidade formam, quando observadas no mapa: Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora das Dores e São Benedito. Elas foram construídas em períodos diferentes e levantam uma pergunta: o desenho foi planejado ou é uma coincidência?

Segundo o professor de Arquitetura e Urbanismo e pesquisador Carlos Kaiser, as distâncias entre as igrejas são semelhantes.

“Coincidentemente, quando a gente vai até lá no Google Earth, você de casa pode ver isso e vai ligando ela, você vai ver que são 600 e alguma coisa, 600 e alguma coisa, formando um triângulo equilátero e apontando um dos lados, coincidindo paralelamente, tendo alguma simetria de paralelamento com o rio Parnaíba, e seu verso apontando para o leste”, afirmou.

A Igreja do Amparo e a Igreja das Dores já estavam previstas no planejamento urbano de 1852. A Igreja de São Benedito, que completa o desenho, começou a ser construída em 1874. Para Kaiser, não há elementos suficientes para afirmar se a configuração foi planejada.

O atual pároco da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, padre José de Pinho considera que a formação do triângulo é uma coincidência.

“Eu acho uma coincidência apenas e simplesmente. Elas são muito próximas uma da outra e a coincidência pode ter sido levada. Já existiu o Alto do Jurubeba, onde foi construída a Igreja de São Benedito. Já existia. Como ali o espaço também do Barrocão, a Igreja das Dores, pode ter sido, mas da parte da igreja propriamente não há nada que sustente isso”, disse.

A geometria está no mapa, as interpretações ficaram por conta do tempo.

A construção da Catedral

A Igreja de Nossa Senhora das Dores, hoje Catedral de Teresina, também tem uma história marcada por problemas estruturais. Durante a construção, uma das torres foi demolida, a outra caiu e houve dificuldades na parte dos fundos do prédio.

“Aquela obra foi um pouco problemática, muito por conta do tipo do solo ali no local. Então demoliu uma das torres, a outra torre caiu também, o fundo também teve problemas de fundação. Para quem analisava a construção, as explicações passavam pelas condições do terreno e pelas fundações”, explicou o arquiteto.

A cidade avançava da região próxima ao rio Parnaíba pela Chapada do Corisco em direção ao Poti. No chamado Alto da Jurubeba, então limite oriental do núcleo urbano, começou em 1874 a construção da Igreja de São Benedito.

A obra levou cerca de 12 anos e teve participação de negros católicos e das camadas populares.

“Hoje a gente já está mais ou menos em 1910. Então essa igreja, você percebe, ela vai ter tudo mais elaborada, ela tem um formato mais trabalhado, com mais detalhes”.

A Chácara Lavinópolis

Ao lado da Igreja de São Benedito existia a Chácara Lavinópolis, propriedade de Colete Antônio da Fonseca e Lavínia Fonseca.

O casal participou de ações de caridade e atividades voltadas à população pobre. A propriedade também funcionou por um período como escola de música para crianças.

“E eles viviam fazendo doações, trabalhos de caridade para a população pobre. Inclusive a própria Lavinópolis, por um período, foi escola de música para crianças pobres”.

Segundo o pesquisador, o casal também participou das articulações que contribuíram para o início da construção do Teatro Quatro de Setembro.

“Outra história curiosa do casal da Lavinópolis é que eles, junto com outros membros da sociedade, se reuniram para iniciar, para pedir o início de obras para o primeiro teatro, o Teatro Quatro de Setembro. Então, se o Teatro Quatro de Setembro está hoje ali ainda em pé, se deve também a esse casal que se reuniu junto com outros membros da sociedade para provocar a construção dele”.

A chácara desapareceu com o crescimento urbano. Relatos de memória também associam a área a um antigo cemitério de escravizados e indigentes, mas a documentação reunida não confirma a informação.

O bonde que circulou sobre trilhos

Foto: Geração por IA/Tempo e Cultura

No início do século XX, Teresina também tentou adotar um sistema de transporte moderno para a época: o bonde.

Os trilhos foram instalados, mas havia um problema: a cidade não tinha o veículo. A solução foi adaptar um caminhão Ford modelo 1918 para circular sobre os trilhos.

O improviso, porém, apresentou problemas. Segundo um jornal de 1927, o veículo não tinha força para vencer as rampas e descarrilava nas curvas. Depois de algumas experiências, o projeto foi abandonado.

O episódio ficou registrado como uma tentativa de modernização do transporte da capital.

Colégio Sagrado Coração de Jesus chega aos 120 anos

Fotos: Benonias Cardoso/Cidadeverde.com

Entre as construções que permaneceram está o Colégio Sagrado Coração de Jesus. Fundado em 1906, começou a funcionar em uma casa da antiga Rua Bela. Em 1907, foi transferido para o endereço atual, na Avenida Frei Serafim.

A instituição chega aos 120 anos acompanhando diferentes períodos da história de Teresina.

“Fomos chamadas na missão para a Teresina com o primeiro bispo do Piauí, Dom Joaquim Antônio de Almeida. Então ele nos convocou, nos chamou nessa missão. Então nós estamos caminhando junto com a Teresina. O Colégio das Irmãs e o Colégio de Diocesano nós temos o mesmo ano de fundação. A igreja teve esse cuidado com a formação dos homens e das mulheres na época. Começamos com o internato e o externato. Posteriormente, os meninos começaram a entrar na nossa escola. Então tem esse impacto na história de Teresina”, infomou a diretora-geral, Irmã Elane.

A irmã também relaciona a história da instituição à fundadora, Beata Savina Petrilli, que nasceu em 1851, um ano antes da fundação de Teresina.

As memórias dos ex-alunos também fazem parte da trajetória da escola.

“O auge dos meus 40 anos, 44 anos para ser exato, ela continua me atravessando e me levando para esses lugares. De afeto, de carinho, de recordação, de contatos. Eu comentava com amigos que as amizades construídas aqui, elas atravessam mais de 30 anos de convivência. Então é uma relação muito consolidada que vai além, muito além”, destaca o ex-aluno Allison Dias Gomes.

Uma cidade que ainda guarda perguntas

Igrejas, documentos, antigas propriedades, escolas e histórias populares mostram diferentes momentos da formação de Teresina. Algumas narrativas têm registros documentais; outras permanecem entre a memória e o imaginário.

Aos 174 anos, a capital ainda guarda perguntas sobre construções que desapareceram, personagens que participaram de sua formação e histórias que continuam sendo pesquisadas.

Conhecer esses registros ajuda a compreender as transformações da cidade e a preservar as referências do passado para as próximas gerações.

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