Saúde

Entenda por que vacina da dengue do Butantan foi suspensa após casos graves

Em entrevista ao Notícia da Manhã desta quarta-feira (10), o infectologista Kelson Veras afirmou que a suspensão da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan é uma medida preventiva prevista nos protocolos internacionais de segurança para medicamentos e imunizantes.

A decisão ocorreu após o registro de 42 casos de reações severas em pessoas vacinadas, incluindo duas mortes suspeitas que ainda estão sob investigação. Segundo o especialista, a interrupção temporária da aplicação não significa que a vacina seja a responsável pelos casos, mas permite uma análise detalhada das ocorrências.

“Os estudos com o remédio, com a vacina, não param após a comercialização. Na verdade, nos primeiros anos em que uma droga, um medicamento ou uma vacina é colocada à disposição do público, o estudo continua acompanhando. Então, é isso que garante que os remédios que nós usamos, que as vacinas que nós usamos são seguras, pois, havendo qualquer evidência, no período de comercialização do produto, de que algo perigoso está acontecendo, automaticamente o produto é suspenso para uma análise criteriosa do que houve”, explicou.

O infectologista lembrou que esse tipo de procedimento já ocorreu com outros imunizantes. Como exemplo, citou uma vacina contra o rotavírus, utilizada para prevenir diarreias em crianças.

“Um exemplo que, para nós especialistas, é muito lembrado é a vacina contra uma diarreia de crianças, causada por um vírus, o rotavírus. Após amplo uso, viu-se que dava um efeito colateral nessas crianças e a vacina então foi suspensa. Então, é algo protocolar, é algo padronizado em todo medicamento, em toda vacina”, acrescentou.

Foto: Ilustrativa/ Freepik

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Relação temporal não significa causa

Durante a entrevista, Kelson Veras destacou que a investigação busca esclarecer se os casos graves têm relação direta com a vacina ou se ocorreram apenas de forma coincidente.

“Há uma correlação temporal, que não significa uma correlação causal. Então, você tomou uma vacina. Será que você não já estava com o vírus da dengue ao tomar a vacina? E porque você tinha a tendência, evoluiu para um caso grave? Então, essa é a pergunta que a análise criteriosa vai responder. Foi de fato algo provocado pela vacina ou apenas uma correlação temporal? A pessoa iria ter, de qualquer maneira, essa dengue grave, mas coincidiu de ter tomado a vacina”, ressaltou.

O médico também relembrou o histórico da Dengvaxia, primeira vacina contra a dengue aprovada no Brasil. Segundo ele, o imunizante apresentava restrições para pessoas que nunca haviam sido infectadas pelo vírus.

“Apesar de não termos uma prova de que a vacina causou esses casos de reações graves, nós tivemos na primeira vacina da dengue uma característica, a Dengvaxia. Essa vacina só pode ser administrada a quem já teve dengue. Lembrando à população que você pode ter dengue por quatro variedades do vírus da dengue, quatro vezes, portanto, teoricamente. Então, a primeira vacina para dengue, quando você nunca tinha tido contato com a dengue, vacinava-se e então tinha a dengue posteriormente, isso tinha uma tendência de evoluir para uma forma grave da doença”, pontuou.

Segundo ele, as vacinas mais recentes, como a japonesa e a brasileira, não exigem a comprovação de infecção anterior. No entanto, a investigação em curso deverá esclarecer se existe alguma relação semelhante nos casos atualmente analisados.

“Surgiu então a vacina japonesa e a vacina brasileira, que não precisam testar se a pessoa já teve dengue ou não. Mas esse evento adverso chama novamente atenção para essa possibilidade. Será que essas vacinas também vão ter problema de vacinar quem nunca teve dengue, pelo risco de, ao ter a doença após a vacina, ela ser potencializada? Então, é isso que essa pausa vai responder”, destacou.

Foto: Renato Rodrigues/Comunicação Butantan

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Orientação para quem foi vacinado

Kelson Veras ressaltou que as pessoas que receberam a vacina devem permanecer atentas ao surgimento de sintomas compatíveis com dengue e procurar assistência médica caso apresentem sinais da doença.

“Quem se vacinou e teve reações graves à vacina, pelo que nós sabemos, foram pessoas que tiveram esses efeitos em pouco tempo, levando a se supor que, na verdade, foi a infecção pela dengue que levou ao efeito adverso grave e não a própria vacina. De modo que a recomendação é: quem se vacinou e desenvolver febre, dor no corpo ou sintomas que a gente conhece como sendo da dengue, procure atendimento médico”, explicou.

O infectologista classificou a suspensão temporária do imunizante como uma medida responsável.

“A decisão de suspender foi uma decisão responsável. O Ministério da Saúde não tentou esconder nada da população. O Ministério da Saúde seguiu todos os protocolos internacionais perfeitos de quem desenvolve com seriedade um estudo de uma vacina”, disse.

O especialista também reforçou a importância de buscar informações em fontes oficiais.

“A mensagem que a gente dá para a população é: confiem no Ministério da Saúde. Não confiem naquele influencer do Instagram. Confiem nas palavras e nas ações do nosso Ministério da Saúde”, finalizou.

Situação em Teresina 

Em Teresina, a Fundação Municipal de Saúde (FMS) informou que não houve registro de complicações ou reações adversas graves entre os profissionais de saúde que receberam a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan.

A fundação reforçou ainda que as demais vacinas continuam seguras e devem ser procuradas pela população.

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